[CRÔNICA] Ribeira, teatro e outras trincheiras da memória

Fui dar uma volta de carro, sem sair dele. Passei pela zona portuária, um dos cantos mais belos de Natal. Pela janela do carro adivinhei os sabores ao ver as pesqueiras e o mercado. Atravesso o casario da rua Chile, rua Frei Miguelinho, o porto com seu ar de despedida. Paro em frente a um dos mais importantes espaços culturais da cidade, a Casa da Ribeira, e admirando sua fachada centenária, branca, sóbria, tão solitária no silêncio daquela rua vazia, fico pensando o quanto a permanência de um edifício teatral é importante.

Os teatros em si são entidades vivas, carregadas de energias, movimentam a emoção de pessoas, público e artistas. Independentemente de ser um edifício histórico, um teatro não é apenas um conjunto de paredes de tijolos com um forro, palco, urdimento. Aquele espaço reverbera a emoção das atrizes, atores, artistas da cena, técnicos que ali trabalharam… ele pulsa. Por isso o tablado é sagrado. Por isso, ao contrário do que acontece no nosso país, todo teatro deveria ser um templo – cuidado pelos governos, pelos vizinhos, pelos que tratam da Cultura e pelo público, que dela se alimenta. Daqueles que na cena trabalham, sobretudo os mais desprotegidos, também se deveria zelar.

Parado diante da Casa da Ribeira fechada, me veio uma frase da peça Geração Trianon, de Anamaria Nunes, quando um personagem ator diz: “Um teatro vazio me dá a impressão de que a vida foi ontem”. Sempre tenho essa sensação ao chegar ao teatro quando estou fazendo uma peça. Gosto de ir bem cedo, muito antes da peça começar, de preferência antes de todo mundo, caminhar até o palco e observar as poltronas vazias, sentindo o seu silêncio povoado de quandos. Ando de um lado para o outro, testo a acústica – mesmo que já esteja acostumado àquele palco. É um ritual, como se me plugasse a todos os atuantes que me precederam – sinto o cheiro de prego, de corda, de filamento queimando gelatina. Depois continuo esse rito no camarim (ou no espaço que o valha): estendo o figurino limpo, dobrado, o material de maquiagem, demoro a arrumar, a derramar os objetos de cena nos bastidores, devagarinho. É hora de me irmanar com os colegas de cena, de celebrar na sacristia o frio na barriga, o risco de globo da morte… Ao mesmo tempo, é para pisar leve, falar baixo, se concentrar. Talvez seja excesso de respeito pelo privilégio de exercitar um ofício que tem três mil anos! Sãos os atuantes antigos que eu tento honrar.

É por isso que, quando vou a teatro com cortina, gosto de vê-la fechada antes do espetáculo começar. Porque, quando sento na frente, me alegra ver a sombra do elenco se mexendo entre a barra do tecido e o palco, antes da função iniciar.

Na porta do teatro Casa da Ribeira me lembrei também da situação dos grandes atores do Brasil. Me veio a trágica morte de Flávio Migliaccio, recentemente, aos 85 anos e sua carta de desenlace: “A velhice neste país é o caos”. Mais triste ainda o vídeo de Lima Duarte, aos 90, se despedindo do amigo. Ambos foram pioneiros, deram a vida em cima daquelas tábuas à procura de outros horizontes, em busca do ser brasileiro. Lembrei do fim deplorável de outros do próprio Teatro de Arena, Chico de Assis, Augusto Boal – talvez o nome teatral brasileiro mais reconhecido lá fora, que dependeu da vaquinha de admiradores para uma cirurgia no joelho poucos anos antes de partir.

Sem contar as teatreiras e teatreiros menos conhecidos, sem papel, sem aposentadoria, que morrem nas escuras coxias do oblívio. É assim que o país cuida dos baluartes do seu Teatro.

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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