[CRÔNICA] Tupãdemia

Uma crônica trata das ações cotidianas do cronista, daquilo que ele tem feito no seu deslindar de Cronos, dos lugares que tem frequentado. Isolado por conta do covid-19, o único lugar em que, de vez em quando, tenho sido obrigado a ir é ao supermercado.
E essa experiência tem sido zoológica, no sentido de me deparar, às vezes, entre as jaulas das prateleiras, com a fauna humana em suas ações mais abjetas. Primeiro, no início da pandemia, presenciei hordas de consumidores atacando as estantes com a voracidade quase de um ataque otomano, como se o Armagedom fosse amanhã. Vi a classe-média saqueando álcool em gel e outros produtos de limpeza com a mesma esganaria que ela tanto recrimina quando vê no jornal um eventual saque de comida por grupos de famintos em outros países. Minha mãe me contou que no auge da escassez da solução etílica, restando apenas um último frasco na prateleira, viu um homem abastecido de quatro litros em seu carrinho apanhar a última unidade com ar de campeão para, em seguida, negar-se a ofertar apenas um para outra cliente.
No meu caso, o do supermercado de um bairro de classe-média, vi o animal indo à caça não apenas do seu alimento, mas de objetos-fetiche. Sim, a impressão que tive, sobretudo no primeiro estágio da recomendação de quarentena, era a de que alguns itens de segurança sanitária se tornaram fetiches de consumo da burguesia. Como se a simples posse desses produtos mágicos garantisse a proteção contra o coronavírus. Impedida de frequentar o shopping center, de babar na vitrine por um Rolex, de comprar uma bolsa Chanel, um tênis Nike, a pequena burguesia se ajoelha diante de um frasco de álcool Tupi a 70% graus Gay Lussac de fração absoluta na solução, chora à frente de uma máscara de proteção respiratória reutilizável 3M, uiva por um galão de água sanitária Super Candida…
Depois dessa primeira fase, pelo menos no estabelecimento que frequento, esse escarcéu diminuiu. Mas quanto mais o contágio avança e a mídia enfatiza as ações de prevenção, mais cresce a desconfiança entre as pessoas dentro do supermercado. Cada vez em que sou obrigado a atravessar um corredor de estantes, mesmo agora em que cada animal-consumidor desfila a sua máscara de ficção científica, a sua luva de inspetor de filme policial, paira um clima de presunção permanente. As pessoas parecem querer fugir umas das outras. O olhar por sobre as máscaras hospitalares é de suspeição indisfarçada: será que ele tem? Será que pode me contaminar? Se escondem o semblante de boca e nariz, enfatizam a expressão de suspeita dos olhares.
Parece também que subjaz a ideia de que, da porta para dentro do nosso idealizado lar, estamos seguros – mais uma burguesa ilusão. Tradicionalmente a rua é vista como o locus do engano, da decepção, da trapaça. Me lembro do Damatta de Carnavais, malandros e heróis (1997) que aponta essa dicotomia, mostrando que, na casa, a divisão das dependências é estrita, delimita, separa. A rua não, mistura. Ela nos empurra para o espaço público, o lugar em que sou todo mundo.
Percebo que, na verdade, é pelas janelas eletrônicas dos smartphones, celulares e tvs, que a rua chega em notícias porta adentro. É por meio delas que aportamos os problemas, que enterramos com o mundo nossos mortos. Por isso, a casa não está a salvo. Não há esterilização para a angústia. Portanto, me parece que não seja o caso de pensar em se salvar. A situação nos obriga a entender que o planeta opera em rede, somos um fio no novelo, ninguém está a salvo de nada e é só tentando zelar pela saúde do outro que vamos sobreviver.

Foto: Arquivo ABr

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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