[CRÔNICA] Noite de João Redondo na Serra da Melosa

Fui convidado por mestre Felipe de Riachuelo a acompanhar o encontro de teatro de bonecos que ele organiza há dois anos na Serra da Melosa, zona rural do município de Riachuelo. Depois de subir uma longa estrada de terra, ladeada por mandacarus, chega-se ao sítio Lagoa do Sapo, onde mora o mestre. Ali ele recebe, todos os anos, seus convidados de fora para um lauto jantar protagonizado por favas brancas feitas com carinho por Zélia, sua esposa. O papo começa no alpendre de sua pequena casa no alto do morro, com vista para o pôr do sol entre o milharal que cultiva e se estende para depois do jantar.
Dali descemos para o evento, que reúne no terreiro a céu aberto do Bar Alto da Serra brincantes de João Redondo – nome outrora usado no Rio Grande do Norte para designar o que é hoje mais conhecido como Mamulengo, o Teatro de Bonecos Popular do Nordeste. É, defendo, o teatro mais antigo do Brasil. Ele se forjou na hibridação dos personagens clássicos da comédia popular ibérica com os tipos e situações da zona rural nordestina. Por meio de seus bonecos de madeira e escondido por uma barraca de tecido rústico, o mamulengueiro leva às praças gírias, piadas e também grita os reclamos e contestações das classes trabalhadoras.
Conheci mestre Felipe no Encontro Nacional de Mamulengo em São Paulo, em 2014. É perito em trocar de bonecos e de vozes. No ápice de sua brincadeira, sobe o boneco de um sanfoneiro e, ao mesmo tempo em que o manipula, com a outra mão toca gaita de dentro da tolda. É um incansável batalhador para a divulgação de sua arte. Reivindica que se preservem os personagens e as histórias antigas da tradição, mas nem por isso deixa de convidar para seu festival brincantes novos que encaminham parte do João Redondo para um discurso mais contemporâneo. É o caso de Catarina Calungueira e Ricardo Gutti, de Ipueira. O Teatro de Mamulengo não é uma apresentação pronta, ele adapta suas cenas à hora, através da participação verbal do público. E naquele noite fria (sim, na serra faz friozinho mesmo no verão) mais de 300 pessoas riram de Zildalte Macedo e Erinaldo dos Bonecos, de mestre Raul do Mamulengo, Edicharles, Duda da Boneca, Tio João, Chico Daniel e do Boi de Reis de Santa Cruz. E depois o sanfoneiro puxou o fole para que o povo chinelasse até às quatro da manhã.
Felipe é muito generoso, fala bastante, esbraveja sua reivindicação em favor da Cultura do Nordeste. Ensina os outros brincantes, mas sabe ouvir e aprender. Por isso é um mestre.

 

Foto: Daniel Fernandes
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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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