História de cronistas e de nadas

A pior coisa para um cronista é quando ele não sabe sobre o quê escrever. Ele gira a cadeira em torno de si, procura uma resposta entre a impressora, a janela, as estantes de livros, o teto e o chão… E o que há de tema para discorrer? É como atravessar a ponte Newton Navarro (ele, aliás, também era cronista) e de lá do meio observar o horizonte. E o nada.

Abordar o nada talvez já seja um bom tema. Se nos estendermos pela complexidade metafísica do nada, podemos encontrar uma série de respostas, afinal toda coisa nula, inerte, vã, insignificante, que represente a ausência de existência caminha para o universo – que compreende todas as coisas.

Mas é justamente do nada que deve surgir uma crônica, despretensiosa. O bom cronista sobrevive do dia-a-dia de seus assuntos. Rubem Braga, por exemplo, era mestre em escrever sobre nadas. Não à toa foi um dos criadores do gênero. Em suas crônicas, ele conseguia dissertar sobre uma folha batendo no bonde que passa, um passarinho voando sozinho pelo céu, um velhinho tomando chope no bar. Paulo Mendes Campos era outro que extraía do cotidiano seus elementos mais sublimes. Não sem razão para isso, ele era frequentador da cobertura de Rubem Braga, em Ipanema, onde cruzava com Vinícius, Drummond e Fernando Sabino, todos igualmente expoentes de um cronismo nostálgico e sentimental, mas sempre crítico e provocador.

Natal também teve/tem seus e suas grandes cronistas: Berilo Wanderley, Newton Navarro, Augusto Severo Neto, Sanderson Negreiros, Câmara Cascudo, Vicente Serejo, Woden Madruga, Clotilde Tavares, Madalena Antunes, Nísia Floresta, Andreia Braz… para citar apenas os que, por enquanto, conheço. Páginas que rascunham tanto os retratos saborosos da Natal reinventada na lembrança quanto aqueles da metrópole crua, azedada pelo real.  Muitas de um tempo em que a crônica era assada na redação dos jornais, suada sobre a máquina de escrever, regada a café e cigarro…e, às vezes, terminada só na madrugada, na revisão feita à bic, a folha sobre a coxa dobrada numa cadeira de bar.

É só lembrar das crônicas de Antônio Maria. Elas revelam seu talento para a prosa-poética, como quando ele diz de um menino que, ao acenar, fazia “gestos vegetais” ou de uma donzela “esperando idade para o desgosto”. Pessimista por natureza, Antônio Maria transparecia em alguns textos sua constante depressão, que o levou num enfarte fulminante em 1964. Aliás, um ano bem sui generis para isso, né? Um ano tomado pelo pessimismo e a deprê geral. Ainda bem que foi há bastante tempo…

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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