Nostalgia em sua mais genuína versão: O que torna o filme francês “Belle Époque” a melhor estreia do ano?

É fácil de entender que em um ano de pandemia, em que o mundo foi assolado por muitas perdas, sejam físicas ou não, a gente busque alternativas para escapar da realidade e é aí que a arte se torna um excelente aliado e companheiro de tempos difíceis. Mas, a arte – especificamente a sétima arte – as vezes nos traz doses homéricas da realidade que tentamos evitar, esse ano não se tem espaço para títulos que abordem o fim do mundo, epidemias, violência demasiada e morte. O que precisamos é que a arte nos ofereça o escapismo em sua mais genuína versão: açucarada, esteticamente agradável, levemente emocionante e que nos ofereça qualquer espécie de conforto ao coração. E “Belle Époque” nos mimoseia exatamente com isso, em uma versão francesa dos clichês, algo que parece levemente agridoce.

O filme do escritor e diretor francês Nicolas Bedos não é exageradamente açucarado, na verdade nada nele é exagerado, tudo acontece numa medida certa e precisa, essa que só os franceses conseguem alcançar. “Belle Époque” é uma comédia dramática que não é engraçada o suficiente para ser considerada uma comédia e nem realista demais que possa ser considerada um drama. Tudo em sua história acontece em um limiar muito sutil desses opostos.

O filme conta, ao longo de 1 hora e 56 minutos, a história de Victor (Interpretado pelo brilhante Daniel Auteuil), um homem na casa dos 60 anos, um pouco deprimido com os rumos que sua vida tomou, mas, profundamente acomodado nela. Ele foi um proeminente ilustrador e romancista gráfico que parou no tempo, não acompanhou os avanços tecnológicos e está sem trabalho. Victor é casado com a psicoterapeuta Marianne (Fanny Ardant), com a mesma idade, mas que – ao contrário dele – ama as tecnologias, as utiliza e acompanhou todos os seus avanços. É fácil de imaginar que esse casamento do homem analógico e da mulher digital não anda bem. Marianne ainda deseja novidades e emoções para sua vida, enquanto Victor já se entregou para uma espécie de fatalismo rabugento que o tempo parece causar naturalmente nas pessoas.

Diante da infelicidade em seu casamento Marianne resolver ter um caso e ela escolhe o François (Denis Podalydès), o editor do jornal que despediu Victor de seu emprego como cartunista. E é nesse momento que toda história acontece. Victor e Marianne se separam, para ela olhar pra frente é fácil, já Victor se sente perdido. Felizmente ele reencontra um salvador, o fã de seu trabalho, melhor amigo do seu filho e conhecido de longa data, o Antoine (Guillaume Canet), que ganha a vida planejando experiências teatrais imersivas, passeios particulares no estilo “Westworld”, para aristocratas que desejam voltar ao final do século 19, ou talvez a “belle époque” em sua própria juventude.


E é exatamente o que acontece com Victor. Ele ganha um voucher do seu filho para reviver algo do seu desejo na empresa do Antoine e escolhe tempos em que a vida parecia mais fácil, mais bonita e menos caótica. Com a ajuda de dezenas de atores, cigarros e garrafas de vinho Antoine reinsere Victor em 1974, em um bar na cidade e Lyon, onde conheceu sua esposa (ex/esposa). A atriz que dá vida a versão de Marianne mais jovem nessa realidade simulada é a ex-esposa de Antoine, Margot (Doria Tillier). E o que acontece desse momento em diante só a própria trama é capaz de contar.

O Nicolas Bedos conseguiu algo realmente impressionante ao projetar essa história, com uma técnica apuradíssima, fotografia e direção de arte impecáveis, Bedos nos insere na trama como partícipes e não apenas como expectadores passivos. Parte dessa conquista se deve ao fato de “Belle Époque” possuir um elenco altamente experiente e preciso em suas interpretações. Mas, sobretudo, o máster nessa produção é seu roteiro extremamente bem-acabado e sem nenhum tipo de exagero. Todos esses elementos reconhecidos pelo César – maior premiação do cinema francês – que brindou essa obra com os títulos de melhor roteiro original, melhor direção de arte e melhor atriz coadjuvante para Fanny Ardant.

Belle Époque é nostalgia em sua mais alta e genuína versão.

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Henrique Avelino
Jornalista, escreve sobre moda e comportamento; é aficionado por arte e cinema e acredita no poder transformador dos livros, do plástico bolha e de uma boa xícara de café.

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