[CRÔNICA] Ex-cravo idões

Estávamos com a peça O Menino Marrom em cartaz no Teatro Folha, na capital paulista. Foi há mais de 10 anos. O simpático livro infanto-juvenil de Ziraldo, adaptado para o palco por Edgar Rizzo, trata do preconceito étnico-racial a partir da teoria da coloração, criada na década de 1980 nos EUA. Uma vez promovemos um debate improvisado com os pais na saída da peça, na hora da despedida dos personagens, no saguão do teatro. Isso em pleno Shopping Center (o teatro ficava num centro de compras). Lembro-me que surgiu a questão do nosso lugar de fala. Sempre pensei que, apesar de ser branco, o racismo é um problema meu, sim senhor. Existe uma herança secular de discriminação em vários sentidos no Brasil. Por isso, diante do inarredável levante que se apresenta no mundo neste momento, não consigo deixar de procurar, de alguma forma, fazer minha a voz dos desigualados, a pedir um fim para as escravidões que ainda não acabaram.
Meu lugar de fala neste texto não é o mesmo e nem pretende alcançar a legitimidade daqueles que sofrem na pele, literalmente, as agruras da discriminação – como tantos amigos e amigas cujas situações compulsórias de sujeição ao preconceito repugnantemente presenciei. Jamais alcançarei sua dor. Aqui sou apenas um brasileiro, professor, cronista, a usar deste humilde espaço para reclamar sua indignação.
“A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil. Ela espalhou por nossas vastas solidões uma grande suavidade; seu contato foi a primeira forma que recebeu a natureza virgem do país e foi a que ele guardou; ela povoou-o como se fosse uma religião natural e viva, com os seus mitos, suas legendas, seus encantamentos; insuflou-lhe sua alma infantil, suas tristezas sem pesar, suas lágrimas sem amargor, seu silêncio sem concentração, suas alegrias sem causa, sua felicidade sem dia seguinte… É ela o suspiro indefinível que exalam ao luar as nossas noites do norte”. Este trecho, da autobiografia Minha Formação, do pernambucano Joaquim Nabuco, bem musicado por Caetano no CD Noites do Norte, é de uma clareza premonitória. Ainda que o final da citação tenha tom melancólico e poético, ela já denuncia genialmente, no final do século XIX, a naturalidade com que a servidão perduraria no Brasil. O preconceito étnico-racial se espraiou de tal forma que chegou a ser camuflado durante muito tempo pela teoria da “democracia racial”. Alicerçamos um “racismo cordial”, garantindo a todos seus pseudodireitos desde que “cada um saiba o seu lugar”. Por isso meu respeitoso cuidado: “De que lugar eu falo”? ou “Quem sou eu para falar?”.
Mesmo assim, diante deste momento de turbulência e aguda problematização sobre o assunto, me sinto impelido a tomar parte no coro. E para além da profunda admiração e interesse que mantenho pela cultura e religião afro-brasileira, a despeito de todas as produções artísticas de matrizes negras com as quais me envolvi, no Teatro; das manifestações de que já participei, ao longo de décadas… se mais não fosse, mesmo assim, enquanto cidadão, meu papel é reclamar, alardear, gritar a cólera.
Mesmo que eu não soubesse sequer uma palavra em iorubá (todo brasileiro as usa), ainda que não cultuasse traços afro nas minhas liturgias religiosas (todo brasileiro religioso tem suas mandingas), que não ouvisse música acompanhada por percussão (todo brasileiro ouve), que não comesse feijoada, que não tivesse sido embalado por canções de ninar ou histórias da mitologia bantu, que não requebrasse o quadril para dançar (todo brasileiro requebra), que não tocasse no corpo das pessoas ao falar com elas (todo brasileiro toca)… ainda que eu não tivesse, como tenho, índices de africanidade na minha genealogia (todo brasileiro tem)… a descomunal diferença e prejuízo que os pretos ainda sofrem na sociedade já seria motivo suficiente para o desagravo. É mais do que isso, uma angústia de não poder fazer nada, em pleno isolamento social, ao ter de assistir, no meu país (sim, no Brasil, eu não acredito), às marchas de arremedos de Ku Klux Kan, aos golpes daqueles que insistem em justificar os racismos (dissimulados ou não).
Nem sei se é crônica este texto, me perdoem… É uma lágrima quente de raiva contra o gélido vento de inverno que entra pela janela, como um bafio de protesto.

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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