(Crítica Filme) Roma VS Cold War

Não somente por serem estrangeiros, mas ao vermos Roma e Cold War é impossível não compará-los, além de estarem indicados ao Oscar em categorias de melhor filme estrangeiro e melhor diretor, ambos são filmados em preto e branco, são de época, cheio de metáforas singelamente explicadas sobre a vida, que vão além de diálogos. Uma comparação inevitável segue.

Entenda Roma…

O filme mexicano, tem o já premiado pela academia Alfonso Cuarón em sua direção. Apesar do título, não remete a capital italiana, mas mas ao bairro de classe média da Cidade do México onde a história é desenvolvida. Uma obra extremamente íntima para o diretor, que também escreve, produz, monta e assina sua direção de fotografia, cheia de apelo pessoal a sua infância, que inspira uma história com traços triviais de uma realidade quase documental.

A narrativa acontece em 1970 e se concentra na história de Cléo (Yalitza Aparicio), uma empregada de uma residência de classe média, com uma rotina pacata e voltada ao trabalho. No entanto não se engane, o filme tem um contexto histórico primoroso e que de certa forma interfere na vida dos personagens em diversos momentos, apesar de não serem o foco da história.

A reflexão deste filme, pessoalmente, me lembra muito ao longa brasileiro Que Horas Ela Volta, sobre a relação entre patrões e empregados domésticos. Porém no caso da história mexicana não é contada em diálogos, mas sim nas metáforas presentes em cada cena. Pode parecer inútil ver cada detalhe de um personagem estacionando um carro, alguém lavando o chão ou simplesmente apagando as luzes, mas cada ação representa algo que deve ser notado para dar sentido ao drama de uma poesia observada em imagens.

Roma possui uma excelência primorosa nos aspectos técnicos, não é a toa que concorre a 10 Oscars. Eu destaco alguns detalhes como: saturação perfeita das imagens preto e branco, mesmo à noite conseguimos distinguir cada detalhe, sem prejuízo; planos sequências riquíssimos e por isso coreografias de cenas muito bem executadas; fotografia belíssima em uma câmera estática e em ângulos panorâmicos perfeitos; excelentes atuações.

Apesar do (e por causa do) deleite técnico, Roma se torna um filme extremamente monótono, com longos minutos focados em trivialidades, exibidas de maneira quase exibicionistas por Cuarón. Um filme que em muitos momentos parece um portfólio do diretor, para mostrar todos os seus méritos. Mesmo que faça o que se propõe, causa uma estranheza no público geral, que está mais acostumado com os filmes ágeis de hollywood.

A Netflix poderá se consagrar desta vez como a primeira plataforma de streaming a produzir um filme digno de Oscar. O debate sobre a popularização do cinema artístico e de qualidade está acessível a todos através do canal é algo real e já discutido nos discursos de Cuarón nas premiações que arrebata.

Entenda Cold War…

O filme polonês do diretor Paweł Pawlikowski,  escolhe uma tela quadrada no estilo retrato para contar a história de Zula (Joanna Kulig) uma garota da zona rural, que é atraída pela chance de cantar em uma escola de artes. Logo a garota se destaca e se envolve com um dos professores.

O nome do filme, remete ao período histórico pós segunda com foco na guerra fria entre França e a Polônia Stalinista, no finzinho dos anos 40 e perdura mais 15 anos de romance. Apesar do contexto histórico impactante, ele é apenas um plano de fundo para a história que tem foco no casal e na paixão que vivem, sem discursos declarando o amor, o roteiro oferece as informações básicas, sem se explicar.

Em vários momentos me lembrou ao roteiro de La La Land por exemplo, ou de Nasce Uma Estrela, em que a personagem feminina com ajuda de um músico mais experiente o supera e atinge o sucesso. Mas aqui é diferente, os protagonistas sempre são separados por diversos motivos, nem sempre ao acaso, no entanto algum deles sempre volta em busca do outro, e todos esses grandes atos levam as consequências cada vez mais pesadas e intensas, que graça a atuação impecável do elenco ganham um realismo incrível.

A música é algo muito forte nesta obra, já que a trilha sonora é cantada e dançada em cena pelos atores. Assim como a caracterização, as músicas são fundamentais para nos dar noção das passagens de tempo, além que são gostosas de ouvir, mesmo que sejam cantadas em polonês ou em francês em sua maioria.

Apesar do filme exibir uma grande qualidade técnica reconhecida pelo Oscar, pois está concorrendo a melhor diretor, filme estrangeiro e fotografia, não existe egocentrismo técnico. Mesmo que as metáforas em imagens estejam presentes, que os planos sejam muito bem executados e muitas vezes até estáticos por alguns segundos, o filme não alonga a sua monotonia. Exibido em singelos 84 minutos, Cold War conta a sua história da maneira que tem que ser.

Não é disruptivo no sentido da inovação por trás de sua produção, mas surpreendeu a todos quando ofereceu um esbanjamento de técnica, história e romance. Um grande feito de filme estrangeiro para ser notado. Cold War ainda é cult, mas o amor é uma mensagem universal.

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Karla Menezes
Amante das séries e filmes. Fã de heróis. Pós graduada em mídias sociais e blogueira do Cheia de Papo.

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