[CRÔNICA] Covid, liberdade e morte

Termina a minha liberdade onde começa a sua. A frase é bem lugar-comum, mas não encontro maneira mais direta de expressar o conceito. Se estou livre e você também (e é bom que estejamos todos livres), temos que estabelecer alguns combinados antes que um de nós seja cerceado em sua liberdade. Transitar pelo mesmo caminho, dividir o mesmo espaço, implica comum acordo de algumas regras. Se eu puder sair fazendo tudo o que me dá na telha, mais hora menos hora, vou atravessar a necessidade ou a vontade de outra pessoa.
Unidade comum, comunidade. Valor que, no Brasil, por um processo histórico injusto e excludente, foi negado aos brasileiros. Basta ver como é tratado o espaço público: ao invés de ser visto como lugar de todos, é terra de ninguém. E lembrar como ficavam os orelhões, até serem todos derrubados, as lixeiras, os brinquedos dos playgrounds, os equipamentos das praças públicas, as pichações nos prédios históricos. Basta sair pela praia e pela rua e ver a quantidade de lixo que as pessoas derramam, como se a via pública fosse um grande lixão.
Nesse momento crítico de longeva pandemia, quando saio de máscara e encontro outra pessoa sem proteção facial, me sinto um grande idiota. Sofro pela luta dos profissionais da Saúde. Há um ano, eu e tantas outras pessoas fazemos o sacrifício de evitar saídas desnecessárias, lavamos as mãos a todo instante, mantemos distância corporal no contato social, cobrimos boca e nariz, enfim, nos poupamos de tanta coisa para que outros estejam nas esquinas como ladrões, desafiando a lei, festejando suas aglomerações, bebendo a morte alheia, como espertinhos tirando vantagem dos babacas que seguem as regras de Saúde.
Mas como querer que as pessoas assumam uma postura empática no deserto cívico que é a cidade brasileira? Talvez seja muito ingênuo imaginar que essa população que fura fila, desperdiça água, arruma um jeitinho para tudo, desperte do dia para a noite com uma consciência de civilidade. Talvez os séculos de exploração e humilhação por uma elite mesquinha e a carência de direitos básicos, tenham desenvolvido em muitos, antes, a obsessão pela vantagem própria a qualquer custo, um egoísmo civil. Isso me parece estar diretamente ligado à alegação cínica de uma suposta liberdade para espalhar um vírus cada dia mais letal.
No começo, eu alertava os desmascarados que, enfurecidos, parecem não entender uma linguagem cordial. Depois, passei a xingar. Mas comecei a ver que, ao invés de conscientizar, eu irrito os folgadinhos e, no fim, quem acaba ficando mais nervoso sou eu. O que faço agora, além de tentar ficar ao máximo em casa, é procurar desviar das gotículas desses assassinos. Estamos morrendo como numa guerra, aos milhares. Cidadãos que não respeitam as normas sanitárias são corresponsáveis pela tragédia virulenta. Sim, porque se atentar contra a vida do outro é tentativa de homicídio, arriscar a vida de muitos é genocídio.

Foto: Engin Akyurt (Unsplash)

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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