[CRÔNICA] Turismo cósmico

De uma escarpa da Via Costeira, admirando a lua de Natal refletida no mar azul-escuro da noite, fiquei pensando em como seria lindo chegar perto de uma daquelas estrelas… Ir para o espaço, em breve, já não será privilégio de astronauta. A NASA não está interessada em continuar a investir em navegação interestelar, aposentou seus ônibus espaciais e está terceirizando o serviço dessa viagem. Pois é, até a atividade cosmonáutica os EUA estão privatizando. A empresa Spacex mandou este ano uma nave para a Estação Espacial Internacional e já está vendendo passagens para futuras viagens à Lua e à órbita terrestre. Qualquer um que tenha grana, muita grana, poderá fazer turismo nas estrelas, como quem aterrissa em São Gonçalo do Amarante ou margeia a Costa Branca de Macau.
Fiquei pensando no que leva uma pessoa a investir tanto dinheiro e preparo físico (sim, é preciso atender a uma série de atributos atléticos) para fazer tal excursão. Certamente a emoção incomparável de, espiando pelo recorte da escotilha, ver a Terra dançando azul no bilhar das esferas. Sentir-se grande ao olhar por fora e por cima e, ao mesmo tempo, saber-se pequeno a flutuar em meio a corpos de grandeza absurda. É… por uma experiência de tanta maravilha, talvez valesse o sacrifício.
E o que levar a uma viagem sideral? Do que sinto falta tão longe de casa, além da minha família? Talvez eu levasse um violão, meu cachorro, para apanhar bolinhas na abóboda celeste, um livro do Borges ou do Guimarães Rosa. E como as refeições de astronauta não devem ser lá essas coisas, não deixaria minha tupperware com camarões no jerimum, ostras e um prosecco, por nada deste mundo.
E quais serão os destinos oferecidos pela CVC cósmica? Se os homens são de Marte não é para lá que eu vou não. Se este planeta, há milênios governado pelos machos, foi transformado numa bola de sobrevivência insustentável, eu escolheria outro canto para me refugiar. Quem sabe não haveria no céu um páramo a salvo desta besta-fera que corrói sua própria casa? Um planeta de alma feminina, habitado por seres superiores, de Luz, de gente que só faz o Bem? Um astro organizado, administrado por aquelas personagens de peça espírita, em equilíbrio ético e harmonia com a natureza, onde os leões são mansos cordeiros e as mesas fartas em frutas e legumes bem coloridos, como nas imagens das publicações que os missionários deixam na caixa do correio. Para lá, sim, eu gostaria de viajar.
Pensando bem, talvez não. Provavelmente tanta exuberância de felicidade gere síndrome de ansiedade ou aumente o colesterol. Além disso, um planeta tão perfeito deve ser muito entediante. Uma vida tão pacífica, privada do sal da luta por alguma causa, da discordância de ideias e do desejo pelo que não se tem. Um mundo só feito de completudes, temperança e alegria… ai, que coisa mais chata. Prefiro continuar lutando pelo que ainda dá para salvar por aqui.

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André Carrico
diretor teatral e professor do Departamento de Artes da UFRN. Falador e desembestado, adora Shakespeare, Cultura Popular e divagar sobre qualquer coisa entre o vento, o mar e as estrelas.

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