Ficaram nos olhando naquela noite de janeiro. Ficaram em janeiros. Ficaram encostados na porta do carro com as mãos na nossa cintura e um meio sorriso que não dizia coisa alguma – só que poderiam ficar um pouco mais. E ficaram.

Ficaram na penúltima cerveja daquela sexta-feira. E naquela quinta-feira depois da faculdade. Ficaram na faculdade e pelo corredor acenando e sorrindo de leve. Ficaram fumando cigarro e nos vendo passar enquanto fingiam olhar para outro ligar.

Ficaram beijando outras pessoas na nossa frente e caindo em outros abraços e fazendo outros planos longe de nós. Ficaram bem longe de nós.

Ficaram nos pedidos de casamento feitos em viagens pelo mundo. A outrem. Ficaram pelas viagens que nunca foram feitas. No carro que subia a serra enquanto a gente se escondia de todo mundo e só tinha olhos um pro outro. Um fim de semana qualquer que ficou inesquecível.

Ficaram nos olhos apertados e nos olhares que sorriam. Ficaram esquecidos naquela música que nunca toca na rádio. Para serem lembrados no meio do silêncio em plena quarta de manhã.

Ficaram nas perguntas de como teria sido. De como poderia ser hoje. Nos devaneiros dos ses e dos porquês. Ficaram, e ficam, e seguem: dentro da gente o tempo inteiro.

Nota da edição: Beatriz Madruga é escritora e você pode baixar o ebook dela aqui.