The Square – do Egito e suas revoluções

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Uma das coisas que se aprende quando estuda e se pratica o jornalismo é que os fatos são sempre mais complexos do que parecem, ou do que os memes do Facebook insistem em fazer parecer.

Abordar toda a complexidade que envolve um fato, com o distanciamento necessário, mas com o aprofundamento que nos permite ver os detalhes de cada um dos lados, não é tarefa fácil. Pior, não é de consumo fácil (as pessoas preferem os memes), mas é de uma importância imensa para entendermos melhor a realidade que vivemos.

O documentário The Square, da realizadora egípcia , consegue este feito, transportando o espectador ao olho do furacão em plena Primavera Árabe. Nós estamos lá, ao lado de Ahmed Hassan, um dos jovens revolucionários egípcios, e seus amigos no meio da multidão que se reunia na Praça Tahrir (daí o nome do filme) para derrubar o ditador Hosni Mubarak.

Ahmed militava ao lado de Magdy Ashour, islâmico, e simpatizante da Irmandade Muçulmana. Juntos, gritavam: “O Egito é um só”. Juntos derrubaram um ditador. E juntos sofreram as consequências, cada um a seu modo.

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Quem acompanha o noticiário internacional sabe que muita coisa não mudou desde que Mubarak deixou a presidência. E é nesse ponto que o documentário ganha força, ao mostrar o desenrolar de uma dos principais movimentos que nasceram da Primavera Árabe.

Guiados por Ahmed, voltamos às ruas que agora protestam contra o governo militar interino que não avançou em uma das principais bandeiras dos manifestantes: a criação de uma nova constituição. Eles, sequer, revogaram o estado permanente de emergência do país, nem dissolveram a temida polícia secreta.

Mas há um elemento político mais forte agora: a Irmandade Muçulmana. Único grupo político organizado do Egito, além dos militares, o grupo se aproveita do movimento para capitalizar as manifestações. Leva multidões à Praça Tahrir e, nas eleições, colocam Mohamed Morsi no poder, primeiro presidente eleito democraticamente no país.

A complexidade da questão política no Egito tem um ponto de inflexão exatamente aqui. A revolução trouxe, em tese, mais democracia. Mas houve consequências. A primeira é a percepção que os manifestantes têm do uso político que a Irmandade Muçulmana faz da revolução egípcia.

Segundo eles, os maometanos teriam negociado com os militares para chegar ao poder. Feito uma espécie de pacto com o diabo.

Em uma das cenas do filme, Ahmed se lamenta: no segundo turno do pleito havia apenas dois candidatos: Ahmed Shafiq, ex-primeiro ministro de Mubarak e Mohammed Morsi, líder da Irmandade Muçulmana. Nenhum dos dois representavam de fato os anseios dos milhões de egípcios que foram às ruas.

Uma das críticas comuns da série de movimentos que nasceram da internet e ganharam as ruas no mundo inteiro (M15M, Occupy Wall Street, Movimentos de Junho…) é falta de uma plataforma viável de propostas políticas e de uma representação adequada, que a democracia exige.

Se havia uma certa dispersão do que exatamente é preciso mudar no mundo ocidental, na Primavera Árabe isso parecia ser claro: derrubar ditadores e exigir uma liberdade que muitos ali nunca tiveram. Apesar disso, no Egito, não houve uma representação que traduzisse esta demanda.

Ahmed Hassan o "herói" do filme
Ahmed Hassan o “herói” do filme

Eleito, Morsi fez reformas para angariar mais poder. Foi acusado de querer ser um “novo faraó” e governou com uma excessiva influência religiosa, em um país dividido entre cristãos e muçulmanos. Reprimiu as críticas com a mesma violência que os antecessores. E caiu patrocinado por milhões de pessoas que saíram às ruas e, novamente, pelo exército e suas aspirações políticas.

E é nesse ponto que a relação entre Ahmed e Magdy, dois amigos revolucionários, ganha contornos dramáticos. Dois jovens que lutam, cada um a seu modo, por um país melhor. Agora em trincheiras diferentes. Um defendia o presidente eleito, o outro saía às ruas para retirá-las.

E aqui vale uma observação: as condições dadas à saída do primeiro presidente eleito egípcio não foram nada democráticas. Morsi foi preso e até hoje há dúvidas sobre seu paradeiro. Seus correligionários foram massacrados na mesma Praça Tahrir de todas as revoluções, com dezenas de mortos, e, novamente, um regime militar se instalou.

Como ainda está ocorrendo, o documentário termina aí. Indefinido, da mesma forma que está a atual situação do Egito.

Uma breve pesquisa no noticiário internacional mostra que recentemente o país aprovou uma nova constituição, com mais liberdade religiosa e civil, mas que amplia os poderes do exército e extingue a Irmandade Muçulmana, organização política que – apesar dos pesares – tem milhares de militantes no país. 

E haverá outra eleição, com franca vantagem do mesmo exército que massacrou a população.

A pergunta que paira no ar é: qual revolução está em curso?

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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