Sorria, você está sendo manipulado

Há um senso comum difundido atualmente que atribui à manipulação de informação uma suposta unanimidade da mídia tradicional. Segundo esta percepção, os jornais, as TVs e as revistas manipulariam as informações em prol de interesses escusos. O mais intrigante neste fenômeno é que essa percepção e quais os supostos interesses dessa manipulação podem variar se o sujeito for de esquerda ou se for de direita.

Isso ajuda a difundir uma série de acusações, geralmente em forma de montagens do Facebook, denunciando os mais diversos meios de comunicação de manipular a “verdade”, com muita gente se colocando como uma espécie de “portador da verdade única”. O resultado disso: um amontoado de ruído em um ambiente que estará, em geral, com pouca informação relevante.

Antes de pensar em manipulação, é preciso definir o que é “verdade” e isso não é tarefa fácil. A “verdade” é um conceito tão subjetivo que pode variar entre duas testemunhas de um mesmo fato, mesmo que elas não tenham interesse nele. O nosso cérebro é tão complexo que pode criar lembranças que não ocorreram, ou podem distorcê-las, dependendo da emoção/formação do indivíduo.

É por isso que a ciência desenvolveu uma série de métodos para tentar se aproximar o máximo possível da tal “verdade”. Uma boa pesquisa científica leva em conta fatores objetivos como números, medições, cálculos e uma observação rigorosa. É tentar isolar, ao máximo, o poder danoso do subjetivo. Mesmo assim há pesquisas cientificas baseadas em fatos que não necessariamente existiram. O resultado: informações equivocados ou “manipuladas”.

Nas ciências sociais aplicadas, em específico no jornalismo, o factual é sempre aquilo que pode ser comprovado documentalmente. E, mesmo assim, depois de ouvir versões de todos os lados de uma mesma história. É um método para tentar alcançar o maior grau possível de “verdade”. Mas, da mesma forma, sujeito aos graus de subjetividade do repórter/editor e até os interesses das empresas de mídia.

Quando se fala em interesse é que muitos dos tais detentores da verdade de Facebook gostam de estufar o pulmão e acusar: a mídia tradicional tem interesse econômico. É óbvio, são empresas privadas, dependem de equilíbrio financeiro para empregar jornalistas e toda uma estrutura dedicada a tentar decifrar essa tal da “verdade”. E isso tentando se isolar ao máximo de potenciais interessados na manipulação da informação, como governos, grandes empresas, partidos políticos por exemplo.

O interessante é devolver a pergunta: e quem não tem interesse na manipulação daquilo que é veiculado publicamente? Partidos políticos, governos, organizações religiosas, empresas privadas, todo mundo têm interesse em difundir determinadas informações, manipular outras a seu bel prazer e esconder aquelas que possam ser danosas. É do jogo. Não fosse isso, não existiam tantas assessorias de imprensa ou empresas de publicidade como há hoje.

Não há nenhum bom samaritano no mundo em prol do “interesse do povo”. Nem os tais “detentores da verdade do Facebook”. Acreditar nisso (e neles) é de uma ingenuidade de dar dó, em uma época onde a informação é cada vez mais fácil de ser manipulada ou simplesmente inventada. Suprimir, manipular, maquiar um fato pode ser a chave para alguém mal intencionado ganhar muito dinheiro ou chegar ao poder. É por isso que o cuidado com o que se lê, acredita e compartilha na internet é tão necessário.

Meme de Facebook com informação falsa. Dessas fotos, só a do Marcelo D2 é verdadeira.
Meme de Facebook com informação falsa. A foto do Chico Buarque é do livro Budapeste de 2006, antes dos Black Blocs. Caetano Veloso não autorizou a veiculação da imagem dele. Só o apoio do Marcelo D2 era real.

Mas com tanto interesse em jogo como conseguir não ser manipulado?

É difícil. Provavelmente a maioria das pessoas são manipuladas por algum tipo de informação que não necessariamente corresponda a um fato. Todo mundo já compartilhou uma notícia falsa. O macete está em variar as fontes, sempre tendo em mente que todas elas têm seus interesses e desconfiar de tudo o que lê, principalmente em sites avulsos ou potencialmente ligados a grupos que tenham interesse naquela informação.

Quer uma dica? Procure sempre saber a quem aquela notícia interessa ou quem financia o local onde ela foi difundida. A internet, ao democratizar um poderoso meio de comunicação, abriu também uma brecha para quem quer espalhar informações falsas. Há muita gente por aqui que tem mais interesse em criar ruído.

Já ouviu falar dos hoax? São boatos criados e largamente difundidos que acabam também sendo propagado na mídia tradicional, antes de serem desmentidos. São mais comuns do que se pensa. Estão todos os dias aí, inundando timelines e pegando os desavisados. Muitas vezes desmentir algo é mais difícil do que espalhar uma informação falsa. Aproveito o ensejo e indico um bom site que se dedica a desmascarar muito dos boatos de internet.

As pessoas tendem acreditar no que querem, baseadas nas suas crenças, dogmas e formação política. Ficar preso àquilo que você acredita, sem se questionar, pode ser crucial na hora de saber se você está ou não sendo manipulado. Repito: a manipulação pode vir de todos os lados, não é uma exclusividade da Rede Globo.

É por isso que é importante: diversificar meios de informação e realizar, periodicamente, uma revisão crítica das próprias crenças. E nunca acreditar de cara em tudo que é fácil demais. Uma boa informação muitas vezes se esconde nos meandros mais complexos do que acreditamos e, apesar da dificuldade em encontrá-la, ela sempre vai valer a pena.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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