Ah, ser mulher!

Ser mulher é sofrer por se identificar com um gênero ainda oprimido pela construção social milenar. Ser mulher é lutar contra qualquer opressão e, ainda assim, fazer um malabarismo sem igual para dar conta de todas as atividades que você tem que gerenciar. Ser mulher é encontrar a felicidade genuína no reconhecimento da vitória da outra, que é livre, só dela, e também sua, porque afinal, todas temos empatia com as situações vivenciadas (ou melhor, sororidade).

Pensando nisso, e justamente, no dia da mulher, perguntei a algumas mulheres sobre as dores e amores vivenciadas na sua história.

Ana Luiza Trintade:

O desafio de sair de Natal não era por questões financeiras, mas sim como seria conviver com todos os medos de morar em uma cidade onde ninguém te conhece e nem você conhece ninguém. Mas, como ser mulher, carregando muitas informações, e sendo assim, sendo julgada por tudo. Ela faz faculdade, mora sozinha, é de outro Estado, tem tatuagens, provavelmente se droga ou leva homens para o seu apartamento por ter essa “liberdade”… Já ouvi alguns desses rumores, morando numa cidade do interior da Paraíba. É difícil não dar ouvidos a isso, porque são julgamentos de pessoas que eu não conheço, então eu estou sempre numa batalha diária para provar que sou uma excelente estudante, me tornarei uma grande gestora por toda coragem que tive de sair da minha zona de conforto e buscar crescimento pessoal e profissional.

Ramilla Souza:

De vez em quando, leio pelas páginas da vida um texto dizendo que ser homossexual não é escolha, porque se fosse, ninguém escolheria uma vida tão difícil. Sempre acho isso, que é supostamente pra defender, extremamente pejorativo. E lembro que ser mulher também é mais difícil. É difícil ter sempre medo de ser violentada, é difícil não ter a mesma liberdade e ir e vir, é difícil ser sempre a culpada. Ainda assim, mesmo sendo mais difícil, eu escolheria ser mulher mil vezes, por todas as minhas futuras vidas. E tenho certeza que o fiz nesta, com toda a maravilha que esta escolha me proporciona.

Louise Marinho:

Quero renascer pelo menos mais umas 8 vezes mulher. Mulher pra montar em cima, pra furar fila, pra ser mimada, estigmatizada, subvalorizada e poder lutar contra tudo isso. Mulher pra andar rebolando, pra se vestir toda de preto numa noite escura e chuvosa, só pra usar um batom vermelho. Vermelho sangue. Mulher para ser melancólica como só ela, nessa mesma noite escura e chuvosa, só pra usar batom vermelho. Vermelho sangue. Pra ser olhada de cima a baixo por professores, amigos, namorados, namorados de amigas, mulheres não muito amistosas, velhos secos, gordos nojentos, mendigos fedidos. Pra sentir muita raiva nessas horas. Por não poder sair de casa até a padaria no seu vestidinho, sem ser chamada. Ficar muito puta com tudo isso. Olha, posso ta galando besteira, mas isso é só um desabafo de momento, ser mulher tem dessas coisas sim. Mas uma vez vou querer nascer homem. Pra ter essas mulheres. Pra tirar o chapéu, reverenciar e piscar o olho ao vê-las passar. Vê-las passar, acompanhá-las e levá-las pra casa. Pra mimá-las, cansá-las, e enfadar-se delas também. Poder falar isso tudo sem ser tão julgado. Porque neguinho, o homem pode falar isso tudo, na maior maladragem, mas eu que sou mulher não posso! Tá vendo como é difícil ser mulher? Hahaha mas é bom, experimentar!