RIP Roberto Nunes, produtor do Cine Cult, o paulistano que acreditava em Natal

Eu me lembro do Roberto Nunes em uma das viradas cinematográficas que organizava. Correndo para lá e para cá para ver se tudo estava certo, arrumou um tempo para conversar comigo, depois de uma entrevista que fiz com ele para a extinta Revista Catorze.

Na época, ele morava em Aracaju e organizava o Cine Cult – sessões de filmes de arte – na maior parte das capitais do Nordeste.

Ele dizia: “Natal é um dos lugares que eu tenho o maior público, há muito potencial”. Isso em um território onde blockbusters dominavam em absoluto todas as salas dos principais cinemas da cidade.

As viradas cinematográficas eram eventos onde eram exibidos três filmes de madrugada para os cinéfilos notívagos em uma das salas do Cinemark. As exibições eram escolhidas pela internet. Pagava-se um valor fixo e ainda tinha direito a tomar um café da manhã.

Contrariando as expectativas, era um sucesso.

Vi “Whatever Works” do Woody Allen  e “The Ghost Writer” do Roman Polanski em uma dessas viradas. Filmes que para assistir na época em que foram lançados, precisava baixar e perder toda a experiência que é ir ao cinema e vê-los na tela grande.

Sempre que podia, eu ia a algumas sessões do Cine Cult.

Infelizmente, por questões comerciais, as sessões pegavam dias e horários mais complicados. Mesmo assim, elas continuavam e, quando precisava, lá estava Roberto lutando por dias e horários melhores.

Gostava tanto da cidade que no início deste ano passou a morar aqui. Logo quando chegou, não perdeu tempo para começar a movimentar a cena cultural.

Para provar o que dizia sobre o público, bancou sessões de Ninfomaníaca do Lars Von Trier e Azul é a Cor Mais Quente tão lotadas que era quase impossível arrumar um ingresso. Isso no horário ruim que o cinema disponibilizava para os filmes.

Nunes organizou uma ação para o filme “Hoje Eu Quero Voltar Sozinho”, com a presença do diretor e dos atores. Trouxe também o diretor Karim Ainuz para lançar o filme “Praia do Futuro” na cidade e ainda organizou um bate papo com o diretor. Coisa rara e preciosa para os fãs de cinema em Natal.

Provava na prática o que a intuição empreendedora lhe dizia: havia sim público, era possível acreditar na cidade.  Por isso, não perdia tempo mendigando editais e apoios públicos para organizar os seus eventos. Simplesmente ia lá e fazia. Um exemplo para muitos produtores locais.

A perda dele, tão repentina, faz falta não só pelo componente de uma tragédia que ninguém esperava. Mas pelo vácuo que deixa na cultura local. Aos 47 anos ele morreu nesta madrugada de complicações causadas pela diabetes.

Nunes mantinha as sessões, mesmo tendo bancado alguns prejuízos em algumas delas ao longo de sua jornada. Não ficou rico, mas teve o prazer de trabalhar naquilo que gostava. Privilégio para poucos.

Eventos do tipo que organizava, em uma cidade como Natal, são raros. Os produtores não acreditam no público e nem na possibilidade de retorno que ações assim teriam. Roberto Nunes, um paulistano, acreditava em Natal mais do que muitos natalenses e teve peito para bancar o próprio projeto.

Esse fato, em si, já é digno de admiração.

Em uma cidade com uma programação de cinema usualmente tão depressiva, as sessões do Cine Cult sempre foram um refresco para aqueles que gostam de ver bons filmes nas salas de cinema.

Ele deixou um legado importante para a cidade e uma legião de órfãos. Descanse em paz Robert Nunes.

Torço para que aquilo que você construiu tenha continuidade e que os produtores daqui acreditem no potencial dessa cidade, da mesma forma que você acreditou.

 

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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