Resposta à série “Sexo e as nega” da Globo: não somos tuas nega, emissora

Acordei triste com a Globo. Não que eu esteja normalmente feliz com a emissora nos últimos tempos, não que eu admire seu papel/influência que ela conscientemente exerce na sociedade, não que eu a ache apartidária e informacional, não que eu veja matérias que me identifico e gostaria de ver na TV.

Mas, hoje, especialmente, acordei mais triste com a emissora.

Na semana passada, já havia lido apenas o nome da sua nova série chamada “Sexo e as nega”, pensado “que nome mais infeliz este” e deixado automaticamente de lado. Até que comecei a ver uma mobilização nas redes sociais contra a série e me interessei mais sobre o assunto.

Vou fazer um breve apurado para vocês.

A série tem como protagonistas quatro mulheres negras que moram na Zona Norte, subúrbio do Rio de Janeiro, são amigas inseparáveis que batem ponto no bar da Jesuína. A fonte de “livre inspiração” é o seriado norte-americano “Sex and the city”.

Miguel Falabella é um dos responsáveis pelo projeto e em uma das suas declarações sobre suas personagens principais, soltou a seguinte pérola:

“São mulheres que gostam de transar, de se arrumar, querem arrumar homem. Vivem os mesmos problemas de mulheres de qualquer lugar. A estrutura é a mesma do ‘Sex And The City’, mas é uma paródia comovente”.

Isso mesmo, Falabella, você já deixou claro a falta de protagonismo dessas quatro mulheres, além de restringir a vida da mulher a “querer arrumar um homem”. Você acha mesmo que personagens assim representam quem?

Tenho certeza que ele achou pouco absurdo o que tinha falado e resolveu complementar com o seguinte preconceito “disfarçado”:

“É necessário ter esse seriado porque a população negra do Brasil pode até ser protagonista, mas é sempre bandido, o pobre, o desgraçado. Elas são pobres, mas são arrumadas, tem moda, elas não são para baixo. São sobreviventes dessa selva como nós”.

Já está ficando meio claro porque a série nem entrou no ar e já está criando tanta polêmica.

Logo de cara, as “nega” são objetificadas e reforçam a imagem midiática da mulher negra como a “pobre” que tem sua vida girando em torno de um homem (ou nesse caso, na busca de um). Claro, existem mulheres negras de classe baixa, como também existem mulheres brancas, pardas, albinas e etc. Por que nenhuma dessas negras tem empregos que envolvem o intelecto?

Nos tempos da internet, a resposta a essa afronta racista e sexista veio a galopar, e foi criado uma fanpage chamada “Boicote Nacional ao programa sexo e as nega da Rede Globo”.

Dentro da página já existe uma mini campanha, a qual leitoras(es) do Brasil afora mandaram suas fotos segurando cartazes “Sexo e as nega não me representa”. Dentre as pessoas indignadas que mandaram fotos com cartazes, percebemos uma maioria negra, a qual faz questão de dizer também sua profissão/faculdade e mostrar uma realidade distinta da que mais parece Colonial apresentada na série.

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Ione Costa Graduanda em Ciências Sociais pela UFBA, Educadora Social e professora de sociologia.

Além disso, algumas blogueiras negras lançaram uma websérie intitulada #AsNegaReal e tem o intuito de discutir a produção da Globo e o preconceito reforçado por ela.

No primeiro episódio, já disponibilizado no youtube, elas discutem o conceito da série, seu protagonismo, o não-lugar da mulher negra na sociedade brasileira e a violência simbólica que a série global significa.

Ressaltando ainda o quanto uma produção global ajuda na formação da imagem da mulher, neste caso da mulher negra, que foi segregada na série como uma “raça à parte” e delimitada a apenas um estereótipo.

Só para finalizar, vejo uma coisa boa nisso tudo: a força para mudar essa imagem, a resposta rápida de uma quantidade significativa de pessoas e a vontade de não se calar ao ver algo que considera absurdo.

Vamos ficar de olhos bem abertos para a estréia do programa no dia 16 deste mês de setembro, logo após o programa “Tapas e Beijos”. Só assim teremos certeza do nível do seriado, se são apenas depoimentos/informações deslocadas, ou, se como já parece, trata-se de algo preconceituoso.

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Alana Cascudo
Publicitária formada pela UFRN. Estudante de pós-graduação em MBA Gestão da Comunicação em Mídias Sociais na ESPM. Cinéfila, notívaga, apaixonada por viagens, gastronomia e assuntos relacionados. Sofrendo constantemente de insatisfação crônica, intolerante à lactose e totalmente desequilibrada.

Comentários

22 Comments

  1. Fico muito contente, admirada mesmo de ver que tem tantas negras com titulos universitarios e profissoes qie implicam um grande desarrollo intelectual. Nao que eu tivesse alguma duvida disso, ate pq na minha familia mesmo tem varias negras doutoras ( advogadas, nutricionista, farmaceuticas, medicas, enfermeiras de formaçao universitaria etc). No meu caso em particular, eu posso mostrar um titulo de tecnica en enfermagem, que alem de tudo ficou guardado na gaveta durante muitos anos, porque apesar de ter estudo, eu sou DO LAR. A minha luta diaria passa pela educaçao dos meus filhos, ensinando pra eles respeito, etica, valores e principalmente o reconhecimento da nossa africanidade. Eu sou DO LAR, MULHER HONESTA E TRABALHADORA, e é atraves do meu trabalho que os meus filhos sim terao a oportunidade de ser doutores, artistas, docentes, ou o que eles escolherem . Eu acho muito bom esfregar na cara desses brancos racistas ( Falabela y rede global) que nem todo preto é servente e nem toda mulher negra é mercadoria.

  2. Realmente é uma coisa a se discutir mesmo, avaliar o que a TV aberta quer propagar para a nossa sociedade, Sexo e as Nega?? Que isso?? Atualmente estamos sofrendo muito com uma juventude cada vez mais desviadas para a precocidade sexual, meninas cada vez mais jovens engravidando e fora os problemas raciais que nosso pais vem enfrentando, dai vem a Globo e joga em nossa cara um programa humorístico com o intuito de rebaixar uma de nossas maiores riquezas, a negritude que faz parte de nossa cultura e merece todo o respeito, onde vamos parar?? Já passou da hora de desligar a TV e abrir um bom livro e esquecermos que há produções medíocres mais preocupadas com ibope do que qualidade em transmissão.

  3. Concordo totalmente com você, reduzir a mulher negra a subempregos é nada mais do que um preconceito, já que ha muitas "negas" doutoras, professoras, e coordenando empresas brasil a fora. Sem falar que num país misto como o Brasil. Todos tem um pé na negritude e é para termos orgulho disso, e representar melhor a mulher negra da TV, uma mulher real e que seja espelho da nossa sociedade.

  4. São tantas ramificações do problema, Camila, esse fator da juventude precoce e da sexualidade como foco de tudo é realmente preocupante. E apesar de acreditar como voce que deveríamos desligar a TV e ler um livro, temos na nossa realidade a TV como grande influenciador da sociedade. E se na principal emissora temos a restrição da vida da mulher a "procurar um homem", algo precisa mudar.

  5. São tantas ramificações do problema, Camila, esse fator da juventude precoce e da sexualidade como foco de tudo é realmente preocupante. E apesar de acreditar como voce que deveríamos desligar a TV e ler um livro, temos na nossa realidade a TV como grande influenciador da sociedade. E se na principal emissora temos a restrição da vida da mulher a "procurar um homem", algo precisa mudar.

  6. Alana Cascudo muito triste mesmo, eu trabalho com crianças de 5 a 10 anos na periferia de minha cidade e o número de crianças com lares desestruturados, problemas de agressões domésticas e pior ainda estupros são enormes, e muitos com acesso a internet e compras de dvds pornôs, dai vemos como ficam as cabeças dessas pequenas criaturas apenas jogadas no mundo, sinto que a Globo tenha esquecido das crianças em sua programação, não se vê nada construtivo para os pequenos e agora mais um programa pra denegrir a imagem da mulher e ainda mais a mulher negra, tem hora que me pergunto onde vamos parar com tanta destruição da família.

  7. Nossa Camila Fernandes , certeza que seu conhecimento no assunto é bem mais profundo já que passa por uma imersão nessa realidade trabalhando com esses jovens. Realmente preocupante, e como esse novo programa terá um enfoque musica também e se passa na periferia, tenho certeza que muitos jovens irão assistir e usar esses personagens como guia/referência.

  8. Quando vi a primeira vez a propaganda da série “sexo e as negas” levei um susto! Acreditei sinceramente que estava lendo errado. Esperei que passasse novamente a dita propaganda e prestei bastante atenção. Não consegui acreditar!!! Não li nada errado! É verdade! Elevei meu pensamento e me deparei com milhares de jovens negras/negros que labutam tanto para “vencer” na vida. Quantas dessas pessoas já passaram por minha vida! Relembrei minha primeira chefe Jussara Sant’Anna de Araújo, negra linda interiormente e exteriormente. Uma mulher excepcional. Filha de negros, a mãe saiu sozinha do Rio de Janeiro e foi para Brasília conquistar uma vida melhor, junto com seus seis filhos (dois homens e quatro mulheres). Ensinou a eles o que tem de melhor no ser humano. Essa série desrespeita Dna Zélia, mãe de Jussara e tadas as outras mães negras que lutam tanto para que seus/suas filhos (as) que já nascem discriminados na maternidade, tenham alguma “sorte” dentro dessa sociedade racista e preconceituosa. A Globo está denegrindo a imagem de uma raça tão bela e sofrida. Essa série não me representa.

    1. Tive a mesma primeira reação que a sua, no começo só li o título e achei infeliz, mas não me importei tanto. Mas quando vi as próprias definições de Falabella sobre suas personagens fiquei triste ao ver o que ele acha que representa a negritude. A hora nenhuma ele mostra essa mulher batalhadora, ou ligada ao intelecto, apenas a “procura de um homem” e em subempregos.
      É quase uma imagem colonial das negras, mas pelo menos, existiu uma resposta imediata nas redes sociais contra a série. Mostra que a população ta atenta e não aceita qualquer tipo de veiculação/restrição da sua imagem.

  9. Na real, nem li o texto todo, como também não li o texto "Ah! Branco dá um tempo!" e nem foi por falta de vontade, foi porque não desceu mesmo… Tudo bem que foi exagerado e inconveniente o título da minissérie da emissora (como tantos outros), concordo plenamente que esse título tanto desvaloriza quanto coloca em posição inferior a figura da mulher, mas todo o estardalhaço que foi feito por isso… Achei meio demais. Daqui a pouco o movimento negro vai estar com tanto descrédito quanto o movimento feminista, que hoje serve mais para piada do que para fins de mudança social, pois tudo e qualquer coisa é motivo de escândalo por parte destas. Está na hora de não levarmos tudo à ponta de faca, afinal, no século XXI já podemos debater inteligentemente todos os assuntos, ao invés de dar alfinetadas uns nos outros.

  10. Não sei quem é mais desocupado, quem escreveu ou quem fica se importando com o que passa ou deixa de passar na TV aberta… Não gosta, não assiste, simples… ou façam como eu, tenham tv paga e assistam apenas o que têm vontade #dica

  11. Sempre quando mostra algum seriado com a mulher negra envolvida, só rola sacanagem e pornochanchada . Sem falar que mulher negra neste e fora do país, só é lembrada no Carnaval com poucas roupas.

    Penso que quem é negro e contra este tipo de seriado está corretíssimo.

    Os negros que estão dando duro, fazendo faculdade e tentando mudar o rumo de suas vidas para algo além de um serviço braçal e doméstico, de gravidez na adolescência e de ser só mais um negro vitimado, com certeza não querem se ver retratados num seriado que com certeza tem todo esse contexto que eles querem modificar na realidade brasileira.
    Nem é preciso ver o seriado para saber que o Falabela foi infeliz no título e no assunto. As negras que acham que esse seriado é bacana devem ser as que andam de short curto pelas ruas, namoram qualquer um e não gostam de estudar, geração nemnem. E os brancos que acham que os protestos são frescura deveriam se por no lugar das negras e negros batalhadores e universitários que querem mudar sua condição social e transpor suas dificuldades vividas numa sociedade intolerante a Tudo e a Todos.

  12. Sempre quando mostra algum seriado com a mulher negra envolvida, só rola sacanagem e pornochanchada . Sem falar que mulher negra neste e fora do país, só é lembrada no Carnaval com poucas roupas.

    Penso que quem é negro e contra este tipo de seriado está corretíssimo.

    Os negros que estão dando duro, fazendo faculdade e tentando mudar o rumo de suas vidas para algo além de um serviço braçal e doméstico, de gravidez na adolescência e de ser só mais um negro vitimado, com certeza não querem se ver retratados num seriado que com certeza tem todo esse contexto que eles querem modificar na realidade brasileira.
    Nem é preciso ver o seriado para saber que o Falabela foi infeliz no título e no assunto. As negras que acham que esse seriado é bacana devem ser as que andam de short curto pelas ruas, namoram qualquer um e não gostam de estudar, geração nemnem. E os brancos que acham que os protestos são frescura deveriam se por no lugar das negras e negros batalhadores e universitários que querem mudar sua condição social e transpor suas dificuldades vividas numa sociedade intolerante a Tudo e a Todos.

  13. O chato é que toda vez que a mídia fala de “negro” sempre relaciona com favela, empregada domestica, ladrão, bêbado etc… Se o autor se inspirou em “sex and the city” (a série americana) então porque não falou de negras chiques, intelectuais, classe média etc… Mas se o caso era falar da realidade da favela, porque não colocou, uma branca, uma negra, uma ruiva e uma japonesa? É simples favela pra os brasileiros lembra negro. Temos que mudar este esteriótipo, para acabar com racismo enrustido.

  14. Quando penso que a Globo já esgotou tudo o que podia para demonstrar que é uma emissora SEM NOÇÃO, MANIPULADORA, PLANTADORA DE VALORES INVENTADOS POR ELA, DESRESPEITOSA, (porque só no Brasil, uma emissora de TV faz o que a globo faz) ela ainda tem coragem de oferecer um programa como esse. Isso é caso de MINISTÉRIO PÚBLICO! Isso é um ABSURDO! Em pleno século XXI!!! Me senti ofendida em minha dignidade como CIDADÃ BRASILEIRA, COMO MULHER, COMO MULHER NEGRA, COMO MÃE DE FILHA NEGRA. E essas atrizes, caramba! Em que mundo essas meninas vivem? Ah! Já sei, esqueci, no BRASIL! Não tem vergonha na cara? Ou melhor: não tem cérebro!! Nunca estudaram História! Não sabem O QUE ESSE PAÍS JÁ FEZ DE MALÉFICO À POPULAÇÃO NEGRA? Não, não sabem. Tenho milhares de livros que elas podem ler, façaM o pedido que envio os nomes. Se quiserem posso até ministrar aulas para que compreendam. ESTOU REVOLTADÍSSIMA. FALLABELA NUNCA MAIS! OUTRO SEM NOÇÃO! Não existe "não ter intenção". Sugiro à Direção da Globo e tudo mundo envolvido nesse EXCREMENTO que voltem para a escola e estudem SOCIOLOGIA, ANTROPOLOGIA HISTÓRIA DO BRASIL E FILOSOFIA que são campos de conhecimento que explicam quem somos, como somos e PORQUE somos. CARAMBA!
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