Nota da edição: o espaço abaixo foi cedido para o projeto Nós de conexão entre artistas de Natal. É um projeto que nasceu da inquietação das artistas Lara Ovídio e Sofia Bauchwitz. Você pode ler a primeira entrevista aqui.

O Projeto Nós: Mapeamento e Articulação de Redes surgiu da inquietação das artistas Lara Ovídio e Sofia Bauchwitz ao experimentarem dificuldade em estabelecer parcerias e projetos coletivos entre os artistas e fazedores da cidade do Natal.

O Nós quer conectar os artistas visuais de Natal por meio de um mapeamento contínuo. O primeiro passo é este, uma série de entrevistas de artistas entrevistando artistas.

A segunda entrevistada é a artista Rita Machado. Rita Machado é formada em Rádio-TV e Jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – Natal-RN – Brasil.

Atualmente ela desenvolve trabalhos na área de comunicação e artes.

Entrevista com Rita Machado

O que te levou ao campo das artes?

Sou incentivada, desde cedo, a acreditar que posso tentar transformar minha imaginação em realidade, e isso também me proporcionou/impulsionou a pensar a arte como possibilidade. Seja crescendo com os ensinamentos estilísticos de minha mãe professora, perturbando meu irmão serigrafista para desenhar super-heróis, ou a significativa presença de minha irmã me ensinando, com muita criatividade, a fazer o que eu quisesse com caixas de sapatos ou madeiras…

Quando pensei em seguir meus estudos e entrar em uma universidade, na época não queria nenhum curso em licenciatura, visto o quanto minha mãe batalhava para nos sustentar, e decidi entrar em uma jornada de estudos ao quais as disciplinas me deixassem livre pra criar e que não me direcionassem para o ensino.

Pesquisei e vi no curso de “Rádio e Tv” cadeiras como iluminação, cenografia, sonoplastia, fotografia, semiótica, linguística, produção de texto. E, além disso, em comunicação eu poderia frequentar o departamento de artes em todas as minhas disciplinas complementares… Foi quase como fazer artes em paralelo. E apesar de nunca ter estudado propriamente dito arte, procuro impregná-la em tudo que faço, pois cresci com esse pilar familiar e tento me disciplinar com minhas leituras até hoje.

Como você transita entre diferentes linguagens? Como você lida com as decisões e indecisões?

Às vezes já penso na arte e sei como quero transpor aos sentidos do outro. Então quando penso em um vídeo já imagino de onde ele deve partir, ou se planejo uma instalação, penso como e que ideias ela pode carregar. É um estudo constante. Busco entender algumas técnicas e linguagens para que quando delas precisar, o trabalho flua com mais liquidez. Isso ajuda nas indecisões diárias.

Existem trabalhos que brotam como flores Xananas ao sol – não tem hora exata nem espaço fixo ao olhar – outros são pensados e planejados por dias, anos… Sonhos que tentamos tornar reais, né? Quero ter uma sacola de ferramentas em meu entendimento para que possa trabalhar com a linguagem que quiser. E essa busca é constante e abrange todas as formas do sentir. Gosto de estudar bastante, de tentar estar imersa nas mais variadas linguagens, de aprender, gestos, ensinamentos, e consequentemente arte.

Em alguns dos seus vídeos a dança é um elemento central. Será que existe aí uma esperança de que a dança possa, por fim, reinventar a cidade?

A dança é multifacetada e inspiradora. É a resposta mais sutil e significativa do imaginário ao agir. Já imaginou a cidade sem o tempo marcado nos passos dos transeuntes que nela passam ou o barulho dos carros em seus percursos, a arquitetura transitando nesse tempo e no espaço que se degrada e se recria, as luzes que transpõem as nuvens e pintam os momentos que a percebemos, os sons que se movem a cada instante, ou mesmo as marcas de luta que gritam em altos falantes que passam?

A cidade é movida por dança. E isto se configura em um grande palco. Natal possui grupos e bailarinos incríveis. Cabe à gente frequentar mais as salas de teatro que ainda resistem.

Voltando ao teu trabalho Somos Comtexto, exposto no XIII Salão de Artes Visuais de Natal, e pensando também sobre o atual Golpe, como você enxerga a evolução política da peça?

Este trabalho não era apenas uma proposta de um trecho musical de Sérgio Sampaio sendo cantado por pessoas em diferentes idiomas tentando transmitir o que lhes fora pronunciado, mas também um questionamento à crise política local que passávamos na época, em 2010. Era uma forma minha de gritar – através de um suporte de um player que tocava o trecho ” eu quero botar meu bloco na rua” sem parar – o que precisávamos fazer. Um convite ainda tímido e utópico de algo que veio a se tornar realidade.

Quando o trabalho “Somos ComTexto” foi exposto, não imaginava que as coisas poderiam acontecer como aconteceram. As pessoas se organizarem também, através de um suporte comunicacional ainda mais moderno, as redes sociais, e se mobilizarem a tomar novamente as ruas como palco de um grito de alerta.

Vejo que hoje precisamos nos organizar ainda mais para nos fazermos ouvidos com mais veemência. Agora não mais irei usar ”eu quero” mas sim eu posso! Eu estou na rua. E agora, o que fazer com este “bloco” na rua? Esse questionamento me provocou a transfigurar essa arte e transformá-la com leituras atuais. Provavelmente usarei a rua como suporte.

Outra coisa que queríamos perguntar para concluir é: como é possível ser artista em Natal?

É acordar todos os dias ao lado da pata do elefante, estar lá, cuidar de suas unhas e não ser valorizado. É estar por ele e não ser visto. É ter o poder em mãos de transformar, mas lidar com o medo constante de ser esmagado ou exposto a ocupar outros cargos, a vivenciar momentos castradores de criatividade e de tempo do fazer artístico, só para se ter os sonhos financiados. Devemos criar redes e possibilidades de nos mostrar. Unir-nos. Acreditar no outro que está na mesma labuta, somar, dialogar e se pôr à disposição. Se colocar à disposição é estar aí para outros artistas, sem amarras ou egos inflados. Propor diálogo e realizar interesses em comum. É raro ver artistas em exposições de outros artistas. Eles, assim como a gente, acreditam na arte, estão fazendo e se jogando nesse caminho que poderia ser trilhado com mais coletividade.