Por que simplificar a linguagem pode ser uma boa para incentivar à leitura

Mal chegou nas redes sociais, a história virou hit. A escritora Patrícia Secco tem um projeto para mudar a linguagem usada na obra de Machado de Assis. A ideia é simplificar a escrita dos livros do principal autor brasileiro, sem perda no sentido original da obra, para tentar fazer com que o público escolar tome gosto pela leitura.

À Folha, ela justificou o projeto desta forma:

“Os livros dele têm cinco ou seis palavras que [eles] não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.”

A mudança vai começar com o conto “O Alienista” e pretende também ser estendido para outras obras. Uma das modificações citadas na matéria é a troca da palavra “sagacidade” por “esperteza”.

A ver pela reação das redes sociais, Patrícia já foi julgada e condenada à morte (ou pelo menos aos insultos eternos dos haters de plantão), sem direito a defesa prévia.

Os argumentos se baseiam na tese de que a simplificação da linguagem “emburreceria” os alunos. Os mais fatalistas dizem que isso é admitir a “burrice” generalizada nas escolas. Uns, moralistas, levantam para bradar: tem de colocar nas crianças o hábito de procurar o dicionário.

Como se os brasileiros, em geral, tivessem o hábito de usar dicionários.

Em um país onde 38% dos universitários são analfabetos funcionais – ou seja, leem, mas não entendem o que leram – e onde a população lê por completo uma média de apenas dois livros por ano, alguém tinha de fazer alguma coisa para mudar esse quadro.

E a melhor coisa é fazer com que os mais novos tomem gosto pela leitura.

Não, eles não vão gostar de ler se forem obrigados a encarar um livro escrito no século XIX e que fala de um universo completamente distinto do deles, com uma linguagem escrita que hoje mal é usada.

Por mais clássico que o livro seja, ele será apenas uma obrigação chata, se nele não houver elementos que atraiam os novos leitores. E ser uma obrigação chata  é que faz com que tão poucas pessoas leem hoje. Afinal, depois de adulto, qual o sentido de continuar um hábito que chateava tanto quando era criança?

Antes de ser sinônimo de estudo e inteligência, a leitura tem de ser também entretenimento.

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A minha impressão é que o caminho mais fácil passa por adotar uma forma diferente de incentivar os mais novos a lerem. Fazer isso com livros que tenham uma realidade mais próxima do universo deles.

Para isso é preciso ignorar preconceitos tão comuns no mundo da literatura (a literatura, acho, é a arte com maior número de haters por metro quadrado que existe).

A minha geração de pessoas que gostam de ler é formada por gente que, em sua maioria, entrou nesse mundo nos braços e vassouras do Harry Potter. Com o tempo e com a orientação adequada, muitos partiram do bruxinho para leituras “mais elaboradas”. Hoje não largam dos livros.

Não foi Machado de Assis que incentivou o gosto pela leitura das poucas pessoas que gostam de ler e que tem entre 20 e 30 anos, mas um estilo literário mais próximo daquela geração.

Desconfio até que essa insistência, aliada com a obrigação, de alunos lerem certos clássicos chatos para elas (Iracema, de José de Alencar, por exemplo) é que faz com que tanta gente não goste de ler hoje.

A necessidade de encontrar histórias e uma linguagem que aproxime os pequenos dos livros é essencial para formar uma geração que adota o hábito da leitura. Isso, claro, acompanhado de um incentivo – e não da militarizada obrigação escolar.

E se, mesmo assim, acharem que os moleques de hoje tem de ler Machado de Assis, que seja com uma linguagem como é a usada nos dias de hoje, mais simples.

A língua evoluiu do século XIX para cá. Ela não é pior, nem melhor do que naquela época, mas diferente. Qual o sentido que faz obrigar um recém alfabetizado a ler, entender e adotar termos que eram usados a 200 anos atrás e hoje pouco se fala?

Nenhum.

Por isso que, antes de criticar a iniciativa da escritora, é preciso parar e fazer uma reflexão séria sobre o incentivo à leitura no Brasil, um país de poucos leitores. E entender que a forma como a leitura é adotada nas escolas é falha e precisa urgentemente de mudanças.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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