O natalense

Ser natalense é morar no paraíso.

E reclamar.

O natalense reclama que tá quente demais, reclama que tá frio demais (quando a temperatura bate os gelados 22 graus), reclama que chove demais, reclama.

Acha defeito em tudo, pragueja, com alguma razão, aquilo tudo que falta em Natal. É um senso de autodepreciação tão grande que, quem é de fora e está apaixonado pelo clima e pela paisagem da cidade, não acredita. Mas que é interrompido assim que o estrangeiro começa a concordar e falar mal também.

Aí meu filho, o bicho pega.

E de maledicente o natalense em minutos se transforma num bairrista quase tão fanático quanto os gaúchos e os pernambucanos. O negócio fica feio. Enquanto que o de fora, atônito, fica sem saber o que fazer.

E ai de você se disser que Mossoró ou João Pessoa é melhor que Natal. Pecado grave. Regra número um: só um legítimo natalense pode falar mal das mazelas da cidade.

O natalense é uma mistura. Um cosmopolita provinciano. Seridós, caicós, com holandeses, italianos, do rural com o urbano. É boy e bichim.  O lord inglês dos nordestinos.

Uma das coisas bem natalenses é a ostentação. Aqui você vai encontrar gente querendo mostrar até coisas que, de fato, não pode ter. Aparência é tudo (as colunas sociais que o digam). Reis do Camarote têm de monte nas baladas, regados a whisky, vaquejada e forró.

E como dirige mal o natalense. Tem o péssimo costuma de não ligar a seta, de parar o carro no meio de uma pista movimentada para jogar conversa fora como se nada tivesse acontecendo, de andar devagar na faixa da esquerda (e correr na faixa da direita). E de reclamar o quanto “aqui o povo dirige mal”.

Um típico playboy natalense. Ou a nossa versão do Rei do Camarote. Arte: Carta Potiguar.
Um típico playboy natalense. Ou a nossa versão do Rei do Camarote. Arte: Diogo Otonni.

Se no trânsito é ruim, na hospitalidade é outra história. É um povo que recebe bem o estrangeiro (desde que ele não cornete a cidade). Sabendo que você é de fora, ele vai querer fazer você se sentir em casa e até o seu sotaque ele vai copiar um pouco.

Com o perdão do pleonasmo, mas se o natalense virou seu amigo, ele vai ser seu amigo mesmo. Ele vai te chamar para sair, te convidar para dar um pulo em casa e, uma vez na casa de uma família típica natalense, eles vão te oferecer comida.  Muita comida.

E ai de você se negar, mesmo que não tenha fome. Em Natal, na casa dos outros, não se nega comida. Se não você é “besta”

O natalense é flexível na língua. Há o famoso “galado” termo típico do local. Ele pode ser usado tanto para aquele cara que você gosta muito e é seu grande amigo, quanto para aquele escroto que passou a perna em você.

Outra curiosidade é que o natalense usa boy (herança dos norte-americanos) como um termo para designar tanto homens quanto mulheres. E para ela há até um diminutivo usado nas rodas de paquera: a boyzinha.

E se a boyzinha com quem você “tá de migué” der mole e você fica ou eventualmente namora com ela, ela vira a sua boy – não no sentido egoísta de pertencimento, mas num sentido mais carinhoso, quase como a sua namorada. Uma ginástica léxica de dar inveja.

Ainda no campo das palavras, em Natal o rolezinho dispensa o frescurento circunflexo no e. O natalense prefere o malandro agudo na pronuncia. É rolé, não rolê.

Na música, o natalense gosta de Garota Safada e odeia rock, ou gosta de metal e odeia forró. Ou gosta de ambos, num incrível ecletismo que só aqui se vê. A certeza é: o bom natalense não perde um show de DuSouto.

Para muitos (talvez a maioria) não importa o ritmo musical, o que importa mesmo “é a resenha”.

Nessa mistura toda, o natalense tem uma benção. É de uma terra de instrumentistas talentosos. Baixistas, bateristas e guitarristas, saxofonistas – não há limite – que fazem qualquer um  com uma mínima sensibilidade musical ficar babando. Deve ser alguma coisa na água da cidade.

Mas o cara que mora em Natal tem um péssimo defeito: não ouve e nem valoriza os conterrâneos talentosos. Olha para ele até com certa arrogância. Prefere esperar que eles estourem no sul maravilha para passar a ter algum interesse. Às vezes nem isso importa.

É a tal da maldição do Câmara Cascudo: Natal não consagra nem desconsagra ninguém.

Em Natal há mais mulheres que homens. E elas, seguindo a tradição local, reclamam: há falta de homens, há falta de iniciativa dos homens, há falta.

Mas quando são cortejadas, gostam de “fazer o doce”, enrolar o candidato para ver até onde ele vai. Deixam o coitado aflito e morto de amores. É lugar de mulher forte, de personalidade e talvez por isso é comum ver muito machão com medo delas. É terra dos “frouxos’. Lar dos manicacas.

Em Natal reina a tranquilidade.

Nos bares e restaurantes te tratam bem, mas sempre são lentos. O natalense tem o seu próprio tempo e este está bem longe de ser sincronizado com o relógio. Ao marcar um compromisso com um legítimo natalense, tenha uma certeza: ele vai sair de casa na hora em que você marcou para encontrá-lo. E não, ele não vai ter nenhum pudor em te deixar esperando.

Mas para quê se preocupar com horários se tudo aqui termina em pizz.., ops, em camarão. E ao alho e óleo, servido na beira da praia de Ponta Negra, acompanhada por uma cerveja gelada?

Isso é Natal.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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