Não #SomosTodosMacacos, somos todos humanos

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Em jogo contra o Villareal, domingo, uma banana voou em direção ao lateral direito do Barcelona e da seleção brasileira, Daniel Alves, durante uma cobrança de escanteio. A reação foi a melhor possível: com naturalidade, o jogador pegou a fruta, comeu e seguiu o jogo.

A simplicidade do ato, fez o vídeo virar hit na internet ao ponto de começarem uma campanha #SomosTodosMacacos com apoio de atletas, jornalistas, publicitários. A ideia é posar no instagram em um selfie, comendo uma banana e usando a hashtag. Tudo contra o racismo no futebol.

Hoje, o Villarreal anunciou que identificou o torcedor que atirou a banana e o baniu para sempre do seu estádio.

Como polêmica só serve grande, o negócio começou a tomar outras proporções quando foi divulgado que a ideia da campanha “Somos Todos Macacos” é, na verdade, uma ação de uma agência publicitária. O fato gerou (e ainda gera) críticas internet a fora.

Não vou entrar no mérito da ação ou de ela ser legal (ou não) por ter sido criado por publicitários e, potencialmente, por gente que quer lucrar em cima.

Aliás, é preciso ser muito ingênuo para não ver que em quase tudo hoje tem gente querendo ganhar em cima. Se não dinheiro, capital político. Só observar em volta: achar algo autêntico e sem gente interessada no retorno daquela campanha super legal da internet é coisa rara.

O que me incomoda é a infantilidade de como tratamos assuntos sérios, como é o preconceito. Tirar fotos com uma banana não me parece um jeito bacana de protestar contra o racismo. Não falo que precisamos ser mal humorados para combater o preconceito, só acho absurdamente inadequado usar a referência ao macaco para falar de discriminação racial.

Primeiro porque não somos todos macacos. Somos todos iguais, como seres humanos e devemos ser dotados dos mesmos direitos, sem distinção. Lembrar esse princípio é fundamental quando falamos do preconceito, seja ele de cor, de gênero ou de religião.

E, apesar de estar contido no termo #SomosTodosMacacos um certo senso de unidade, ela não alcança a necessidade de igualdade de direitos humanos que é o cerne do combate à qualquer tipo de distinção. Somos todos humanos, não macacos.

É preciso deixar claro que é de uma imbecilidade atroz discriminar o outro pela cor da pele. Como se esse detalhe fosse fazer alguma diferença no caráter, no talento e na potencialidade da pessoa.

Trazer a necessidade de mostrar o quão estúpido é o preconceito e quanto nós, humanos, somos iguais em potencialidades, é que deveria nortear uma ação contra quaisquer tipo de discriminação. E não uma referência simplista (até mal educada) a um animal.

E aqui vale entrar em outro campo importante: a falta de iniciativas para protestar contra a homofobia no futebol, outro tipo lamentável de discriminação presente em um esporte tão bonito e tão apaixonante.

Situações extremamente preocupantes envolvendo homofobia ocorrem (e já aconteceram) muito no esporte, sem a reação necessária para evitá-la. É só lembrar do caso do jogador Richarlyson. A igualdade de direitos, seja de cor e de gênero, infelizmente, ainda está longe.

Mas apesar da distância do ideal, é preciso sempre lembrar para a sociedade que somos todos iguais. E ser igual significa que no campo de futebol ou em qualquer outro lugar da vida, não importa a sua cor, religião ou opção sexual, você será respeitado como ser humano.

E esse respeito nasce não por uma questão moral, mas por uma questão óbvia e simples – como a atitude do Dani Alves em comer uma banana – a de que o preconceito é algo irracional, animalesco.

 

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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