Mortes na cidade do sol: a assustadora escalada de violência no Nordeste

Onda-de-assaltos-revolver-14-06-13

Quando se fala em violência no Brasil, a ligação normalmente que a grande mídia faz (tanto a brasileira quanto a estrangeira) é quase sempre com os dois maiores estados do país: Rio de Janeiro e São Paulo. O Nordeste é esquecido, com algumas poucas exceções que ocasionalmente aparecem aqui e ali.

A questão é que o crescimento econômico dos estados nordestinos a ritmo chinês nos últimos anos e a forma desordenada que isso se deu, sem os investimentos necessários em assistência social e segurança pública, mudou o polo da insegurança do Sudeste para o Nordeste.

Tanto São Paulo, quanto o Rio de Janeiro, tiveram diminuições consideráveis em número de homicídios nos últimos 10 anos. Ainda são muito violentas comparadas ao ideal, sobretudo o Rio, mas há uma tendência de diminuição.

Dados da ONG Conselho Cidadão para a Segurança Pública e Justiça Penal, do México, listou as 50 cidades mais violentas do mundo em 2013. São nove no Nordeste com praticamente todas as capitais na lista, com exceção de Teresina, e taxas de homicídio que chegam 79,76 mortes por 100 mil habitantes como é o caso de Maceió, capital do Alagoas.

Para se ter uma ideia, a OMS (Organização Mundial da Saúde) considera uma taxa de homicídios epidêmica maior do que 10 por 100 mil habitantes.

Natal é uma das que mais sofrem com o problema. Na ranking da ONG mexicana, ocupa a 12ª posição com uma escandalosa taxa de homicídio de 57,62 mortes para cada 100 mil habitantes em 2013. Cinco vezes mais alto do que é considerado grau epidêmico pela OMS e mais que o dobro da média nacional  (20,4 por 100 mil).

E a escalada parece não diminuir. No último domingo, o policial civil Ilfran André Tavares de Araújo foi morto depois de reagir a um assalto em uma padaria. Segundo o Conselho de Direitos Humanos do RN, ele foi a vítima número 564 em 2014 no estado e número 195 em Natal. 

O jornalista e pesquisador em segurança pública, Ivenio Hermes, escreveu um artigo no site Carta Potiguar em que aponta que o número de homicídios em abril deste ano já é maior que o mesmo período do ano passado. É provável, portanto, que a taxa de 57,62 seja ainda mais alta ao final de 2014.

Há uma matança crescente e parece que não há ninguém fazendo nada para deter isso.

O número de homicídios é uma boa métrica para medir a violência, mas não mede outras ocorrências como assaltos, por exemplo. Não encontrei dados fechados sobre isso em Natal, mas há uma percepção generalizada que o problema aumentou em grande escala, em uma cidade que até 10 anos atrás era considerada pacata e segura.

O site “Onde Fui Roubado” faz um levantamento informal e provavelmente subestimado das ocorrências em várias cidades do país. Em Natal, por exemplo, ele contabiliza 338 ocorrências em 120 dias, quase 3 assaltos por dia e um prejuízo total de mais de R$ 700 mil nos primeiros quatro meses de 2014. Dinheiro que foi todo para a atividade criminosa.

Detalhe que de todas as ocorrências postadas no site, apenas 47% das pessoas procuraram a polícia para registrar B.O. O que aponta para a incrível falta de credibilidade que as instituições policias têm hoje.

Isso porque temos uma polícia mal paga, mal preparada e mal equipada. Basta ir em uma delegacia e ver o estado em que andam: elas aparentam ter ficado estagnadas em algum lugar dos anos 90, com uma porção de máquinas de escrever, poucos computadores e infraestrutura precária.

A situação do policiamento ostensivo ainda é pior. Há um mês, o jornal Tribuna do Norte publicou uma matéria alarmante mostrando a precária condições dos carros de polícia da cidade. Por falta de manutenção básica, muitos deixam de circular. Alguns, a própria população se dispõe a consertar para tentar amenizar a sensação de insegurança.

É uma situação deplorável.

Do outro lado, enquanto isso, cresce a barbarie que são os justiciamentos e as linchações – problemas derivados da crescente violência aliada a falta de confiança nos órgãos competentes para combatê-la e uma dose de falta de humanidade de algumas pessoas.

Tudo isso em ano de Copa do Mundo e de eleições.

A pergunta que fica: onde é que vamos parar?

 

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

Comentários

3 Comments

  1. Basta colocar a polícia fazendo ronda na rua, durante a copa, quando isso aconteceu a criminalidade nos bairros ao redor do arena diminuiu bastante, óbvio que foi uma operação conjunta com o governo federal, mas isso mostra que é possível.

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