Dos tempos do IRC, ao Orkut e Facebook; a internet sempre foi social

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A internet sempre foi social a gente só não olhava para ela desse jeito.

Mesmo antes da explosão do conceito que veio com o Orkut, Twitter, Facebook, Instagram, Vine e outros. Ela sempre teve como principal característica a de aproximar as pessoas, criar interações via interesses comuns e sempre trabalhou com noções de “compartilhamentos” e até a de seguir ou não seguir as pessoas.

Um exemplo é o IRC. Para quem não lembra (ou para os que nunca usaram), ele era um programa de bate papo com uma interface totalmente em texto, que era organizado por canais que existiam de acordo com o interesse do usuário.

Se você, por exemplo, morasse em Natal, entrava no canal da sua cidade. Se gostava de filmes, havia um canal para isso. Se torcia para um time, idem.

Havia ali muitas das características do Orkut e do Facebook como a possibilidade de se manter conectado diretamente com os seus amigos, conhecer novas pessoas de acordo com o interesse, acompanhar informações compartilhadas por outras pessoas ou simplesmente interagir.

O antigo IRC e o nostálgico script Scoop
O antigo IRC e o nostálgico script Scoop

Quem usava a internet naquela época (estimo os tempos de ouro foram entre 99 a 2003) tinha no IRC e na falida rede Brasnet uma extensão das própria vida. Algo que o Facebook é hoje.

Como muita gente não tinha acesso a web naqueles anos (e nem se interessavam muito), a grande diferença de hoje para o ontem é que as “redes sociais” eram mais restritas.

E é interessante fazer paralelos com aquela época – modens discados, pico de audiência da web depois da meia noite, predominância do texto e etc – com hoje.

Uma das mais interessantes é a privacidade. No falecido IRC, por exemplo, ninguém usava o nome real, mas um apelido. As informações, por serem dinâmicas, não ficavam  disponíveis na web o tempo todo. E você sabia que o seu rastro digital não seria reaproveitado para virar publicidade.

Era uma época em que ninguém se preocupava muito com um uso apócrifo das informações deixadas na rede.

Outra rede social da época era o Fotolog (espécie de avô do Instagram) que permitia a postagem de uma foto por dia. A imagem era compartilhada com os amigos, que escreviam comentários, em um“engajamento orgânico” – palavrinha mágica hoje de 11 em cada 10 manuais de marketing digital.

O fotolog já tinha também o conceito de seguir as pessoas e também revelou as primeiras web celebridades (quem não lembra do sucesso que era a Marimoon e seus cabelos coloridos?).

Marimoon, uma das primeiras webcelebridades da internet brasileira
Marimoon, uma das primeiras webcelebridades da internet brasileira

Ali era o início da fotografia digital, quando era raro encontrar câmeras digitais e que os principais aparelhos tinham incríveis resoluções de três megapixels. Hoje muito inferiores a maioria dos celulares.

Quando, por problemas com hackers e falha nos servidores, a Brasnet acabou e as pessoas da internet  migraram em peso para o MSN Messenger (filho do ICQ e pai do gtalk e avô do whatsapps), havia uma lacuna não preenchida. Apesar de o Fotolog ser bacana, o nível de interação dele era pequeno (é por isso que não aposto no Instagram).

E qual era a deficiência do MSN? Você interagia apenas com quem já conhecia. Não havia como agregar as pessoas por interesses. Não era social. Era individual. E muito usuário sentia falta da época do IRC, dos seus canais, da interação com as diferentes pessoas e até das suas tretas.

Os maravilhosos (!?) anos da internet discada
Os maravilhosos (!?) anos da internet discada

Até que apareceu o Orkut.

Lembro bem da estratégia inicial de divulgação usada pelo Google. Só entrava na rede social quem era convidado. Foi a mesma estratégia usada com o Gmail (o incrível email com 2 gb numa época que o Hotmail te dava apenas 2 megas de espaço).  Eram cinco convites por pessoas. Havia gente que vendia esses convites, tamanho o hype.

O Orkut preencheu exatamente o vácuo deixado pelo IRC. Havia ali a possibilidade de interagir não só com seus amigos, mas com pessoas com interesses comuns. A diferença é que ele era mais radical nessa interação.

Os perfis reuniam uma gama de informações sobre a pessoa: cidade onde mora, idade, dia do aniversário, status de relacionamento, comunidades e fotos. Você não precisava mais do fotolog para compartilhar fotografias com seus amigos. Você tinha um álbum para isso.

Outro grande acerto – ainda torço para que o Zuckeberg um dia copie isso – eram os depoimentos. A possibilidade de você escrever algo especial para um amigo, um parente, uma namorada, e isso fazer parte do seu perfil. Era algo que de alguma forma resumia o usuário.

Ah, o orkut
Ah, o orkut

E não há como falar do Orkut sem mencionar as comunidades.

Pensada para ser um fórum – e em muitas vezes usada como isso o que ajudava a difundir os mais variados tipos de informação – o sucesso delas foi, principalmente, porque elas eram como uma coleção de pequenos selos que descreviam os usuários.

Se você não gosta de azeitonas, havia uma comunidade para isso. Se gostava de artes marciais, também. Se o seu ídolo, por exemplo, era o Chuck Norris você também podia usar lá. Ou se você simplesmente quisesse a pura zoeira, havia dezenas de comunidades criativas e engraçadinhas.

É mais legal que suas páginas do Facebook, porque elas ficavam mais visíveis no perfil e não escondidas. E era mais simples entrar em uma delas, checar os usuários que também estavam lá e até participar de alguma discussão.

As preocupações com a privacidade começaram ali.  Como estavam disponíveis em um perfil estático, era possível ter acesso a informações que a pessoa, talvez, não quisesse deixar públicos. Isso gerou o “leio, respondo e apago meus scraps” e o cadeado que aparecia nas fotos com compartilhamento restrito.

Há um detalhe importante: ele já aproveitava as informações deixadas pelos usuários para turbinar anúncios. E o conteúdo das comunidades pertencia ao Google, não ao autor.

Hoje faz 10 anos que o Orkut apareceu. E em meio a homenagens legais (indico essa e essa do Youpix) e muita nostalgia daqueles tempos,  a sombra dela ainda permanece.

Tamo ai na Relatividade

Seja na ausência das comunidades e depoimentos, seja na facilidade que era usado. Ainda acho que há mercado para uma rede social nova que una coisas bacanas do Orkut e o dinamismo do Facebook.

E vale sempre lembrar, a sua época de ouro coincidiu com a melhoria de renda dos brasileiros e a difusão do acesso à internet. Ele foi a porta de entrada de muita gente para a vida digital.

Foi triste quando ele “morreu”.  Atribuo isso pela sua tentativa de ficar mais parecido com o Facebook. Foi o caso de atualização de interface mais fracassado da história da internet.

Os programadores do Google não sacaram que o legal da rede social era a de ser um perfil estático, sem que você precise atualizar seu status constantemente. E nem que os depoimentos e as comunidades valiam ouro para muita gente.

A mudança de interface e da dinâmica só acelerou a tendência de migração para o Facebook. Se eles tivessem mantido a essência, talvez muita gente dividisse atenções entre as duas redes sociais hoje.

Uma pena.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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