O dia em que o pequeno humilhou o gigante: a história do Baraúnas de Cícero Ramalho

Cícero Ramalho

O ano era 2005.  Copa do Brasil. Dois times disputavam uma vaga nas quartas de final do campeonato. Um era o Vasco que tinha como técnico o indefectível Joel Santana e como atacante o ídolo Romário.

Do outro lado, o Baraúnas – O Leão do Oeste -, time de Mossoró, interior do Rio Grande do Norte.

O que os vascaínos e o Brasil não sabiam é que o rival possui um jogador de brio e colhões. Um atacante de história nessa espécie de subcategoria de futebol que reúne times pequenos do interior do Brasil.  O goleador Cícero Ramalho.

À época, já um veterano com 40 anos de idade, quase aposentado do futebol, e 11 quilos acima do peso.

Contrariando todas as expectativas, Ramalho foi essencial para desequilibrar os dois jogos entre os times e garantir a classificação inédita do Baraúnas para as quartas de final, maior conquista da história do clube.

Como manda o regulamento da Copa do Brasil, foram duas partidas entre as equipes. A primeira no Nogueirão, Mossoró, com uma vantagem para o time visitante: caso o placar fosse maior que dois a zero, o Baraúnas estava eliminado.

As coisas transcorriam como era o imaginado quando time carioca abriu o placar, até que os deuses do futebol cumpriram a sua sina de mostrar que o esporte bretão é um dos mais imprevisíveis que há.

Em dois lances, o Cícero Romário – apelido que detinha, em homenagem ao craque do outro time – fez o improvável: marcou o gol de empate e, ao aproveitar uma falha do goleiro do time rival, virou o placar.

O primeiro jogo só não terminou com vantagem para o time do interior por conta de um gol contra marcado a favor do Vasco no final da partida.

Qualquer cético na época diria que foi um golpe de sorte. Que o Vasco, cansado pela viagem até Mossoró, não conseguiu mostrar o futebol que tinha. Que no Rio de Janeiro, sob os braços do Cristo Redentor, a normalidade voltaria com uma provável eliminação do time mossoroense.

Queimaram a língua.

As imagens mostram o feito até hoje: São Januário lotado de vascaínos, enquanto do lado do time rival, quatro ou cinco corajosos, que viajaram de Mossoró ao Rio de Janeiro, acompanhavam timidamente a partida e torciam pelo Baraúnas.

Nem o mais otimista dos mossoroenses, nem o torcedor mais fanático do clube potiguar, seria capaz de prever com exatidão o que iria transcorrer nos próximos 90 minutos. O Leão do Oeste rugiu e o Vasco tremeu. Cícero, o Ramalho, não o Romário, fez história.

Ramalho comandou a equipe num improvável 3 x 0 que parou Mossoró e que lhe rendeu o título de ídolo da equipe. A vitória também derrubou o técnico Joel Santana do comando do Vasco.

Romário estava em campo naquele jogo e foi obrigado a ouvir, dos gatos pingados mossoroenses, a troça que embalou o Baraúnas naquela época.

“Bacalhau otário, quem tem Ramalho não precisa do Romário”.

Em entrevistas que deu depois da conquista, Cícero Ramalho confessou que o Baraúnas era o seu time de infância, apesar de, anos depois, ter começado a carreira e virado ídolo no principal rival: o Potiguar de Mossoró.

À Band, Ramalho declarou qual foi o fator que motivou os jogadores da equipe a fazerem história no Rio de Janeiro e hoje serem consagrados entre as melhores campanhas do futebol potiguar.

“Empatamos e garantimos o jogo da volta no Rio de Janeiro, mas ainda assim tinha uma ‘galera’ que dizia que o Vasco ia ganhar de cinco pra cima na partida de volta”, completa. “No Rio de Janeiro, inclusive, só dava Vasco entre os comentaristas esportivos, e aquilo mexeu com os nossos brios. Falavam que a gente tinha 1% de chances e o Vasco tinha 99%, mas, em campo, são 11 contra 11”.

Na fase seguinte, veio a eliminação do time mossoroense, com duas dolorosas goleadas sofridas contra o Cruzeiro.

Mesmo assim, a lenda permanece, contada com orgulho por quem viu e viveu o feito do Cícero Ramalho e os 10 valentes, protagonistas de uma das histórias mais deliciosas do futebol brasileiro.

 

 

Previous ArticleNext Article
Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

Comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *