Das paixões que vivemos

No momento em que a vi, tive uma certeza. E ter certezas num mundo como esse é raro e, no mínimo, suspeito. As paixões têm esse poder de tornar algo uma verdade, ou uma potencial verdade, no meio do vale de dúvidas que vivemos. Por isso são um tanto perigosas, carregam esse caráter irracional de uma certeza sem lastros de razão.

As paixões podem se pautar por coisas objetivas: gosto, beleza, sexo, custo-benefício, sorriso e um sem número de características, mas a maior parte dela é embasada num plano metafísico. Não se sabe nunca o porquê, nem por onde se começa uma paixão. Ela simplesmente começa.

Algo, ou uma pessoa, pode reunir toda a gama de características objetivas que levam ao sentimento, mas isso não será suficiente se o invisível, metafísico – ou seja lá o que for – não existir.

Escritores como Garcia Márquez descrevem paixões como febres fortes que abatem o indivíduo, aumentam a temperatura corporal e tem sintomas parecidos com a de uma doença (ler Amor nos Tempos de Cólera).

Mas o consumo interno de uma paixão pode ser calmo, apesar de igualmente inquietante. Depende da forma como a pessoa lida com o sentimento.

O que há em comum entre os apaixonados é o consumo de tempo, energia e força que ela despende. Parece que tudo só fará real sentido se aquela paixão for vivida em sua plenitude.

Deixar-se levar por uma paixão depende, ainda que minimamente, da disposição do apaixonado em sentir.

Paixões podem ser asfixiadas, dependendo do contexto em que ela vier. Asfixia-la tem um problema: deixará marcas. Uma paixão nunca vai embora impune, por mais esforços que fizermos.

E como explicar isso tudo a ela?

Sentimentos são únicos, individuais e intransferíveis. Não há como provar para a outra pessoa que tudo aquilo é real e não, não é um embuste de quinta categoria. Sentimentos dependem de confiança. Uma confiança cega na outra pessoa.

Imagino o amor, que é um estágio a frente da paixão e que prescinde disso para existir, como uma ponte onde duas pessoas, cegas e de mãos dadas, atravessam. Elas precisam confiar uma na outra para seguir o caminho até o outro lado e não podem, em nenhum instante, largar a mão do parceiro. Amor é, antes de tudo, um pacto de confiança.

Confiança depende de tempo, nunca é instantânea. Paixões são instantâneas e, por isso, irracionais. É um sentimento que pulsa forte dentro do corpo, retira o indivíduo de qualquer inércia que ele esteja envolvido e o faz mudar profundamente.

As paixões fazem parte da porção do inexplicável que habita em todo o ser humano. É uma espécie de fogo que nos movimenta, seja no sentido de uma pessoa em específico, seja no sentido de um objetivo ou de uma profissão e – pior – urgem por serem vividas e consumidas.

E nisso, surge um paradoxo: ao mesmo tempo em que a paixão leva a uma certeza quase que imediata, ela desperta também a uma insegurança que beira o irracional. Será que ela sente o mesmo que eu? Será que sou capaz?

No final de tudo, nunca se sabe. A paixão é isso: não saber até o fim e, por isso, correr riscos, apostar.

E foi o que fiz, apostei.

 

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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