Como a internet pode mudar a política

10jul2013---manifestantes-criam-o-movimento-occupy-yourself-e-fazem-protesto-zen-em-frente-ao-congresso-nacional-os-manifestantes-se-organizaram-pelas-redes-sociais-e-propoem-uma-reflexao-silenciosa-e-1373502

Há um vídeo do professor e pesquisador norte-americano Clay Shirky no Ted Talks de 2009 que fala sobre como as mídias sociais podem mudar nossa história. Uma das teses que ele defende é simples e atual, embora ainda pouco adotada principalmente no mundo da política e do poder público: a de que as redes sociais são um diálogo entre emissores e receptores e que, com base nesse diálogo, é possível ir além da gestão convencional. Mas é impossível controlar como a audiência pensa.

Apesar de  ser defendida já há cinco anos, essa forma de atuar nas redes sociais é ainda muito recente quando falamos no marketing privado e ainda embrionária na política. Na palestra, Shirky usou como exemplo a repercussão de um terremoto na China (na época o país ainda não havia proibido o Twitter) e a atuação do Obama quando ele ainda era um parlamentar nos Estados Unidos.

As empresas – pelos menos as grandes empresas – parecem já ter descoberto uma linha de comunicação que não só possibilita esse diálogo, como usa dele para vender produtos, ideias e marcas e até mesmo aperfeiçoar o atendimento e a qualidade do produto por meio da opinião de usuários. Isso gera engajamento, clientes, serviços mais eficientes e dinheiro. Mas e quando se trata do poder público, ou da ideia de uma possível gestão compartilhada?

Os experimentos ainda são muito recentes e tímidos, mesmo a nível global. A referência mais ousada sobre isso foi na Islândia, que usou as redes sociais como consulta para uma nova constituição.  O restante – pelo menos dos que tenho notícias – não passa de iniciativas pontuais aqui e ali, sem nenhum aprofundamento na potencial relação de diálogo que a internet possibilita também para a política.

E pode não ser exagero afirmar que os movimentos políticos globais que estouraram no pós Primavera Árabe em todo mundo tenham um pé – sobretudo nos países ocidentais – na ausência desta interface. Uma das características da tal da Geração Y é que ela tem o ambiente online como uma extensão das próprias vidas e uma das características deste ambiente é seu caráter colaborativo. Ao propiciar o diálogo, ela favorece a colaboração para as empresas, organizações e governos.

revolution

Essa característica abre um flanco para um governo democrático jamais imaginado nem pelo mais empolgado filósofo iluminista do século XVIII, ou qualquer visionário democrata grego. É possível, de forma relativamente simples, usar a população para a consulta sobre leis e também para uma participação direta em ideias para políticas públicas que serão posteriormente postas em prática. Os olhos da população podem ser importantes para os governos ganharem eficiência desde o combate à corrupção e até para resolver problemas simples como buracos na rua ou a luz de um poste queimado.

E essa ideia não é nova.

Don Tapscott e Anthony D. Williams já falavam isso em 2006 no livro “Wikinomics: how mass collaboration changes everything” . Na obra, eles demonstram o quanto essa cultura de diálogo e colaboração própria da internet – e, principalmente, da rede social – poderiam mudar a nossa economia. E que as ideias com essa interface são as que terão futuro rentável no século XXI. Pensar um modelo colaborativo ou wiki de gestão pública é uma necessidade de uma geração que vem a bordo da maior revolução social e econômica desde a revolução industrial e a invenção da imprensa.

Mas para chegar lá é preciso perder o medo da internet. Perder o medo significa não tentar controlar o que a audiência pensa e nem comunicar só com a parte da audiência que lhe é favorável – algo constantemente repetido, mas aceitar as divergências e incentivar as pessoas que façam sugestões para uma gestão melhor  É também entender que, quanto mais transparência na tomada de decisões importantes, melhor para a população e para o bem público.

E para mudar mesmo, é preciso lidar com a mídia social não somente como forma de comunicação, mas também como forma de gestão. É pensar na criação de gabinetes virtuais e de plebiscitos online para decisões importantes. E finalmente perder a arrogância, natural a alguns políticos, e entender que há uma mina de ouro de soluções eficientes aí fora, esperando apenas o incentivo correto para aparecer.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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