Bonita

Açúcar, fermento e tudo o que há de artificial. Assim ela foi criada, com tudo de bom e de melhor a classe média havia de lhe prover. À pão-de-ló e um amor ausente, de pais que muito trabalhavam e lhe sustentavam, de carinho pelas futilidades dos presentes fora de hora.

Ela aprendeu a manipular cada detalhe ao redor de si mesma, cada suspiro, cada sorriso amarelo, cada corda de esperança. Porque tudo era palco, fachada. Tudo era ausência, aparência. Tudo era escasso, momentâneo, pra ontem – porque o mimo de casa é o que ela queria ter na rua.

Os amigos ela escolhia com cuidado pra não ser ofuscada. Com apreço pra não ser desprezada. Com medo de ser desmascarada. Os homens, então, com louvor.

Pra sustentar as aparências, fazer de conta que é amor, deixando em cada pedaço sua personalidade (que já era tão pouca e não deixava saudade). E em cada canto cinquenta centavos de sua dignidade de boa moça, de quem obedece sem responder, de quem não se dispõe se não tem nada a receber.

Ela só acha graça quando tem certeza que ninguém vê a ruga do nariz que só aparece quando ri e piada não sabe fazer, nem entende – só sorri e acena. Ela só fala quando ele deixa e quando abre a boca é pra se queixar da palha que ficou o cabelo depois da última platinada. As músicas que ela conhece são as que tocam no rádio e livro, na vida, nunca leu um que não tenha mais figuras que palavras – mas decorou uma e outra frase esperta de autor com nome e sobrenome, que viu no status de um Facebook qualquer.

Ela não come fora de hora e pergunta pra todo mundo o que é melhor para poder tomar uma decisão. Ela quer fazer intercâmbio pra comprar maquiagem e nunca, repito, nunca a vi expressar uma opinião.

“Ah, mas ela é tão bonita.”

Pena que nunca fez esforço pra ser algo além disso.

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Redação
Um novo jeito de blog :)

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