Raom – Natal, 1988-*, artista visual multimídia, seu trabalho é marcado por uma permuta estética de suscitação espiritual que infere de modo importante nas suas concepções, um ritmo onde múltiplas camadas de sonho e atmosferas de signos travam uma guerra interna contra sua própria produção, linguagem que se dá por meio da força do fracasso e do acidente, vestígio de que sua obra representa o descontentamento como aspecto intrínseco do ser que opera sua linguagem por meio de uma conversação variante das coisas – da neurose na cultura, da amizade dos sentidos e da organicidade de tudo. É nítido que há em sua obra um processo de decomposição estética no sentido dialético de movimentação.

“Com um coquetel molotov de ideias, informações e linguagens na ponta da língua e do lápis Raom Benarez quer deixar sua marca na província”. (Alexis Peixoto, Tribuna do Norte, Natal, 2014). Realizou poucas exposições entre 2014 e 2016, prefere uma produção mais introspectiva, focado na pesquisa de linguagem mesma e suas matizes internas. Em 2014 realizou sua primeira mostra solo, na Pinacoteca Potiguar; e no mesmo ano participou de uma coletiva com outros artistas de Natal na Primeira Graffitti Expo. Em 2015 expôs no Museu Hélio Galvão; e no ano de 2016 montou 2 exposições, uma para o Mahalila e outra para a Lee Boards, esta última foi preparada junto com Daniel Nec, nela os dois sugerem uma abordagem crítica à concepção de arte.

O figurativo tem menos força em seu trabalho nesta fase mais atual, justo pela sua análise contundente à imagem. Entre suas experimentações há o desenho, a colagem, a pintura, escritos, o bordado, o xarpi, lettering e as mídias digitais. Apesar do modo tortuoso, seu trabalho se dá com um dinamismo peculiar.

Raom, desenvolve uma dialética da técnica e da forma, tecendo enunciados que criticam a concepção das tradições pictóricas ocidentais. Para ele, o traço depende de um movimento que precede a forma, como o dado apontado pelo artista “a palavra silêncio” que marca sua motivação. Desenho como ‘mapa’, fio, fiação e não ‘decalque’, portanto, sua tentativa de concepção parte de um pensamento que pretende retornar à forma mais básica para elucidar a linguagem. A dualidade colocada é linguagem x movimento: “a forma avança sobre a vontade, precipita seu movimento e a faz tombar”. Sua motivação é, portanto, uma heterogeneidade de existência e linguagem estética, como se o ser estivesse impresso na história da forma. Nesta caça pela “palavra não-dita”, seu processo opera uma decomposição que infere sobre sua própria estética.

A mostra Segunda Matéria, pretende dar continuidade à sua crítica à imagética. Nela, o artista estabelece uma relação de analogia entre forma, linguagem e comportamento traçando um paralelo com estética, movimento e vontade. A partir deste diálogo, tem-se, no objeto em questão, críticas contundentes às estruturas que regem a existência. A “palavra silêncio”, notada invariavelmente em sua obra, toma lugar no processo e recobra sentidos e aspectos subsumidos pela tradição da forma. O objeto consiste em intervenções visuais na galeria, fazendo o uso de linguagens como áudio, muralismo, lambe-lambe e gif.

Aqui, a palavra escrita se transforma numa materialidade que antecede qualquer projeção, linha ativa em oposição decalque passivo. A estruturação das coisas e as composições da linguagem são memória e vivem num tempo inexistente e virtual, reconhecido por nós como passado. A linguagem é um território estabelecido e a vontade sua ruína.

Como sintoma dessa impressão descontente e dessa aproximação do dito, da inscrição, sua pintura hoje passeia entre letra e forma: “esse entrelaçamento dos poderes da letra e da imagem, que exerceu um papel tão importante no Renascimento e que vinhetas, fundos de lâmpada e inovações diversas da tipografia romântica ressuscitaram. Esse modelo embaralha as regras de correspondência à distância entre o dizível e o visível, próprias à lógica representativa. Embaralha também a partilha entre as obras da arte pura e as decorações da arte aplicada. É por isso que teve um papel tão importante- e geralmente subestimado – na transformação radical do paradigma representativo e nas suas implicações políticas. […] essa interface é política porque revoga a dupla poética inerente à lógica representativa. Esta, por um lado, separava o mundo das imitações da arte do mundo dos interesses vitais e das grandezas político-sociais. Por outro, sua organização hierárquica – e particularmente o primado da palavra/açao viva sobre a imagem pitadeara análoga à ordem político-social.” Ranciere. 

Autoria do texto de: Dora Bielschowsky