A balada dos amores platônicos

Em Suzanne, clássica música do canadense Leonard Cohen, o autor narra a história de uma relação imaginária entre um homem e uma moça “meio louca” e que “serve chá e laranjas vindas da China”.

Foi regravada várias vezes e é inspirada num amor platônico do músico nos anos 60. A letra traz as descrições do dia em que Leonard conheceu Suzanne Verdal, a musa do poema e com quem nunca se relacionou.

É uma poesia bonita e um tanto melancólica, característica da obra de Cohen, e que nos faz pensar sobre cada um daqueles amores que, ao final, nunca tivemos.

O interessante dos amores platônico e de como projetamos situações dentro de um contexto imaginário é porque eles são aparentemente perfeitos. A música fala um pouco disso.

No barato da nossa mente, tudo é feito sob medida para agradar os nossos gostos mais secretos e as nossas demandas mais urgentes, a sensação é que eles serão como no mais romântico filme de Hollywood. Ou, no limite, a mais melancólica música do Cohen.

E é da forma que projetamos a pessoa numa relação platônica, sempre numa relação onde o amado é perfeito, contra a nossa própria imperfeição, é que nascem as expectativas desenfreadas e algumas esperanças que podem nunca serem correspondidas.

Um amor platônico, que vai além da imaginação e se tornar um amor, correspondido ou não, é arriscado por trazer uma gama de decepções.

O que me leva a uma citação do filósofo suíço Alain de Botton.

O amor não correspondido pode ser doloroso, mas é doloroso com segurança, porque não envolve infligir danos a ninguém senão a si mesmo, uma dor particular que é tão agridoce quanto é autoinduzida. Mas, assim que o amor é retribuído, você deve estar preparado para desistir da passividade de apenas ser ferido e assumir a responsabilidade de perpetrar o ferimento por conta própria.

Por ser doloroso e pela possibilidade do amante “perpetrar ferimentos por conta própria” dentro de uma relação, é que muitos preferem o imaginário do platônico. Não há riscos quando vivemos algo que “não existe”.

Viver nesse estágio de imaginação permanente não é algo necessariamente ruim. Desde que se compreenda que aquele universo perfeito só vai existir apenas na cabeça de uma pessoa. E nunca vai se concretizar.

Mas viver assim é sem graça.

Por conta de busca sem freios por segurança e da negação da dor, abrimos mão das possibilidades que a indefinição podem trazer para a vida.

Pode ser irremediavelmente difícil sair de algo platônico para o real, por uma série de motivos, mas a vida em sua crueza realista nos insiste em repetir: vale a pena.

É, afinal, a falta de certeza que faz com que a vida seja complexa e interessante, não um pacote de coisas previsíveis, indolores, perfeitas e chatas.

Por isso que as relações reais, por mais tortuosas que sejam, são sempre melhores que as platônicas: elas nos puxam ao desconhecido, ampliam nossos limites e nos fazem enxergar além do nosso próprio universo.

A melhor opção é sempre arriscar.

(Foto: Fox Trot)

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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