[ARTIGO] Não quebre, arrudeie

Existem muitos ditados populares, forjados na necessidade da população de conhecimento filosófico embutido em roupagem popular… dito isso poderíamos enveredar por inúmeras vertentes do conhecimento sábio, antigo e simples, mas vou me deter a um específico: “água mole em pedra dura, tanto bate até que fura”.

Será?

Durante um passeio à toa em sebos, havia em um deles uma frase muito interessante: “água mole em pedra dura, a água desvia”. Faz sentido… Mas vamos analisar melhor!

Imagine que você está de frente a um muro e quer atravessá-lo. Você pode andar um pouco mais e dar a volta. Certo. Mas pode também bater nele até ele abrir uma passagem para você (“água mole em pedra dura tanto bate até que fura”). Vamos supor que você opte pelo caminho mais perto (e consequentemente mais confortável) que é bater para fazer um buraco na parede para passar.

Você vai bater muito na parede, sempre no mesmo ponto – ou pontos próximos – até que consiga fazer um buraco e passar. A cada pancada que você der, você irá desestabilizar mais a estrutura, a cada nova batida ocorrerá uma fissura microscópica naquela construção, e a cada vez mais você irá fragilizar todo o muro. Mas… opa… você conseguiu, fez o buraco! (“água mole em pedra dura tanto bate até que fura”)

Está na hora de passar por ele…

No instante que você começa a andar em direção à passagem, percebe que as laterais do muro não aguentam mais a estrutura e tudo vai cair a qualquer momento. Quando você está dentro do buraco – no meio da travessia – o teto desaba (ou pelo menos cai muita coisa).

É nesse instante que as pessoas pensam “o que deu errado?”… simples: você forçou a barra. Bateu até abrir a passagem (“água mole em pedra dura tanto bate até que fura”). Mas a sua insistência fragilizou a estrutura! Por que não podia simplesmente ter dado a volta? Você teria andado mais (e quem sabe aprendido mais) mas teria deixado a estrutura intacta, sem sofrer você nem ela!!!

Vamos comparar agora ao mundo que lhe cerca? Quantas vezes você insiste em algo até “conseguir”? Sim, entre aspas, porque você bateu tanto na “pedra” que deixou-a impressionantemente fraca, ou desestruturada. E a dor que fica é imensurável.

Não entendeu? Quer um exemplo bem prático? Certo, vamos lá… já tentou convencer alguém de alguma coisa? Você soube argumentar? Se sim, conseguiu? Se não, por que não argumentou?

As pessoas são muito fechadas em seus mundinhos – e em seus conceitos – por isso, quando tentam convencer alguém de algo, não costumam variar seus argumentos, simplesmente “batem até furar” (e insistem no mesmo argumento). Ora, pessoas (e animais também) têm sentimentos. Se você insiste em um único ponto, como aqueles bichos que usam viseiras, irá aborrecer muito seu interlocutor.

Conseguirá seus objetivos? Talvez até sim, mas, à qual custo? Ao custo do seu relacionamento com seu interlocutor? Porque é isso que acontecerá. Valerá à pena “ganhar” a conversa mas perder a amizade? Destruir a ponte que une vocês dois?

Então se for conversar com alguém, não “bata até furar”, mas dê a volta: obtenha mais argumentos, converse, dialogue, escute o que o outro tem a dizer, e faça seu contraponto. Mas faça-o de forma inteligente, e com argumentos diversificados, ao invés de simplesmente “bater até furar” a sua “pedra”.

E não venha dar uma de “bater até furar” e usar apenas o exemplo acima. Cabe a você mesmo refletir e saber quando é hora de arrudiar. Com a liberdade quase poética, de reescrever um ditado popular, eu deixaria-o assim: “Água mole em pedra dura, água arrudeia”.

Decida-se! Quer bater até furar, ou quer arrudiar?

Texto de autoria do Fernando Hippólyto: jornalista de formação; e fotógrafo de paixão, premiado nacionalmente. Trocou a engenharia pela comunicação para poder conhecer histórias de vida. Fã de Star Wars, e apaixonado por leitura, é um católico que tem como lema “Nunca é tarde demais para se fazer a coisa certa, mas você precisa começar agora!”. E está sempre disposto a dar uma palavra de ajuda.

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Redação
Um novo jeito de blog :)

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