O amor nos tempos do Tinder

O celular vibra. Mais uma notificação. Ao desbloquear o aparelho, o símbolo já conhecido do Tinder traz a boa nova: mais um match na rede social de paquera que, hoje, é a mais usada no Brasil.

Há vários motivos que explicam a popularidade do Tinder. Um deles é a praticidade. Basta logar com o Facebook, determinar a faixa de idade que se tem interesse, o raio de distância (ele usa o GPS para isso) e, logo, as fotos dos pretendentes aparecem. Ao usuário, cabe marcar se a pessoa é atraente, ou não, de forma anônima.

Caso duas pessoas se marquem como atraentes, o aplicativo notifica os usuários da combinação e uma janela de chat abre. A partir daí, a história é com eles.

Praticidade, facilidade e uma boa dose de superficialidade fazem parte de como a gente estrutura a nossa sociedade hoje e de como as relações são criadas.

Romances começam e terminam com um toque na tela do celular. Facebook, Whatsapp, Tinder e até o Instagram são cada vez mais extensões da nossa vida pessoal.

Tudo na velocidade da internet. Instantâneo. Isso faz lembrar os amores líquidos do sociólogo Zygmunt Bauman, essa coisa fluida e veloz característica do nosso tempo.

E por mais que essas tecnologias venham para melhorar a nossa vida – e de fato melhoram – ainda resta nos corações humanos uma certa nostalgia romântica do analógico.

A carta escrita com garranchos, a espera pelo telefonema, a declaração dada olho nos olhos e até mesmo a paquera moleque, presencial, aquela que pega o/a pretendente despreparada (o), em algum momento trivial, e garante uma boa surpresa.

Surpresa, aliás, é um elemento raro. Conhecemos até os desconhecidos. Basta uma olhadinha no Facebook da pessoa e já se tem informações sobre quem é, o que faz, quais os amigos em comum.

A facilidade gerou uma diminuição na quantidade de coisas que podemos descobrir. Pode-se argumentar que ficou mais seguro, mas perdeu parte de um elemento surpresa gostoso que havia tempos atrás.

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A vida é assim.

As desvantagens trazem também vantagens: nunca foi tão fácil superar um amor e nunca foi tão fácil encontrar um novo amor (ou pelo menos um fuck buddy). Com Facebook, Tinder, Whatsapps e todos os aplicativos que estão aí, a probabilidade de achar a sua agulha num palheiro aumentou sensivelmente. Mesmo que essa agulha só seja sua numa única noite.

Multiplicamos nosso potencial de estabelecer relações ao mesmo tempo que diminuímos a profundidade delas. É o trade off que a tecnologia traz para os relacionamentos humanos. Se há variedade, não há profundidade. Se tem profundidade, não há variedade.

Qual o melhor? Depende de cada pessoa. Muitos gostam dessa leveza das múltiplas relações: são mais simples de lidar, menos dolorosas. Outros preferem o peso dos poucos (e bons) romances.

Mas, mesmo assim, nessa era da superficialidade, o romantismo não morreu. É possível se apaixonar através da tela do celular, fazer declarações de amor via Skype, e descobrir universos inteiramente novos – aqueles detalhes mais interessantes que as pessoas sempre escondem do Facebook – ao trocar mensagens no Whatsapps.

Óbvio que nada substitui a presença física, como os mais fatalistas teimam em prever.

Mas o virtual alivia um pouco dessa necessidade da física, nos faz paradoxalmente menos solitários (quando, de fato, estamos solitários), diminui distâncias, mas também cria outras dificuldades (quem aí nunca brigou por uma mensagem que não foi bem entendida?).

Os tempos são outros e o amor quase o mesmo.

Mais escorregadio que antes, eu diria. Ou mais livre para voar para outros portos, sem se prender, a espreita sempre de um clique, um toque na tela do celular, ou um match no Tinder.

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Jornalista formado pela UFRN. Fez o Curso Estado de Jornalismo Econômico do Estadão/FGV e o Rumos Jornalismo Cultural do Banco Itaú. News addicted. Apaixonado também por internet, cultura, política, mídias sociais, publicidade e pelo Palmeiras. Odeia azeitona.

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