No filme Noé dirigido pelo polêmico Darren Aronofsky, o protagonista constroi uma arca para salvar os animais do dilúvio. Após o feito, passa a adotar uma postura cruel em nome da sua fé. Para ele, a catástrofe seria uma forma de extinguir o ser humano que, em sua impureza, deturpou a obra de Deus.

Criticado por religiosos pela mudança que o autor faz na história bíblica, a obra traz a tona uma discussão interessante: até que ponto a fé justifica a barbárie?

Isso porque Noé nega abrigo a crianças e aos inocentes que sofrem com a catástrofe. Prefere deixá-los morrer a mercê de qualquer ajuda. E, ao saber que a namorada do filho está grávida, ameaça matar os bebês caso sejam meninas.

Aronofsky é brilhante ao mostrar que a mesma força que cria uma imensa arca numa situação improvável, alimenta uma crueldade cega para matar crianças e negar abrigo a inocentes.

A mesma fé que constrói pode também destruir,

O filme foi polêmico e despertou o ódio dos mais religiosos por expor de forma crua essa deturpação que o fundamentalismo pode trazer.

O quanto que se mata (ou se deixa morrer) por conta de crenças que, em essência, pregam o amor e o respeito entre os indivíduos? E por que matar se Deus, em quase todas as releituras religiosas que existem, quer a paz?

Esse radicalismo não é exclusividade de uma religião. Islâmicos, cristãos e judeus têm segmentos que usam do excesso para reafirmar suas crenças. Com frequência, desrespeitam os direitos humanos de pessoas que pensam diferente delas.

Um desses desrespeitos ocorreu na Nigéria.

Mais de 200 meninas entre 13 e 18 anos foram sequestradas no país.  O caso aconteceu no dia 16 de abril. Um grupo de terroristas invadiu uma escola e efetuou o rapto.

Nesta semana o grupo fundamentalista islâmico Boko Haram assumiu a autoria do crime.

O nome do grupo significa, de acordo com o blog do jornalista Guga Chacra, “educação ocidental é pecado”. A ação seria uma forma de impor a posição religiosa deles. Eles atuam no país desde 2002 e, há cinco anos, vem realizando ações terroristas.

Há relatos que as meninas estão sendo obrigadas a se casar com os homens da seita, além de forçadas a se converterem para a religião. Há depoimentos, não confirmados, de que elas estariam sendo estupradas também.

Em um vídeo, o líder do grupo ameaçou vendê-las como escravas.

A ONU já se pronunciou sobre o caso e destacou o potencial crime contra a humanidade que está ocorrendo. Países como os Estados Unidos, Reino Unido, China e França se ofereceram para enviar forças com objetivo de resgatar as garotas.

As famílias das vítimas acusam o governo nigeriano de negligência no caso. Elas foram sequestradas na metade de abril e as forças do governo dizem que sequer tem pistas de onde elas estão sendo mantidas.

Ou seja, mais de 200 meninas foram sequestradas, podem estar sofrendo abusos físicos e sexuais, estão sendo ameaçadas de serem vendidas como escravas e ninguém sabe onde elas estão.

O motivo disso tudo? O suposto caráter pecador que a educação ocidental teria além de um desejo irracional de impor às outras pessoas uma religião. Mais um abuso cometido em nome de uma fé cega.

A situação é semelhante a do filme Noé. Em nome Deus e de uma suposta pureza espiritual, um abuso é cometido. As meninas foram raptadas para se livrarem da pecaminosa cultura ocidental. Estão sendo convertidas “para o bem delas”, nesta visão lógica deturpada.

A mesma lógica que, no fundamentalismo cristão, dá argumentos para a discriminação de mulheres, homossexuais e trata o sexo como algo sujo.  O infeliz lado negro de muitas religiões.

O que nos resta é torcer pela libertação das garotas e trabalhar para que, no futuro, todos possam ter e expressar as suas religiões, com respeito e sem esse fundamentalismo maluco mal dessa nossa época.