Uma mulher que aparenta ter um pouco mais de 20 anos circula seminua, com uma focinheira na boca e imitando um cachorro pelos corredores da UFRN.

Ela late, come ração e chega a urinar em um poste. Em tempos de internet, fotos e vídeos se multiplicam, a notícia se espalha e a performance vira polêmica. Um dos questionamentos reverbera: o ato é arte ou não é. 

Daí, um turbilhão de comentários. Há aqueles que falam do caráter artístico do ato e do protesto, em que a garota utiliza o próprio corpo (e uma boa dose de coragem para fazê-lo).

Mas há os muitos que criticam, desde aqueles que simplesmente não gostaram, às infinidades de comentários sexistas e alguns até violentos contra a menina que se manifesta.

O certo é que pela visibilidade e por ir além dos corredores da UFRN, a performance surtiu efeito.

Antes de falar deste efeito em si, gosto de deixar claro: não sou um estudioso da performance-arte. Meu conhecimento se limita a alguns conceitos básicos sobre o termo, algumas poucas performances que vi e algumas conversas que tive com amigos, entusiastas desta forma artística.

Mas se você nunca ouviu falar sobre isso, provavelmente conhece alguma coisa da Marina Abramovic, o nome mais “pop” deste estilo de arte.

Se o nome é ainda incerto para você, uma das performances (na verdade, uma interpretação errada de uma das performances dela) viralizou há um tempo atrás: era aquele vídeo da artista que reencontra o amor antigo depois de 33 anos (uma pesquisa mais profunda revela que eles haviam se encontrado antes).

Pois bem.

Uma das características da performance é a preocupação estética junto com o questionamento sobre o próprio corpo. Não é por acaso que a menina da UFRN usa uma focinheira, anda de calcinha e tem o corpo pintado pela palavra ódio.

Por mais que você discorde, tenha nojo, ou acha que foi “só para aparecer”, há um valor estético nisso, na forma como ela se veste, como ela anda e como ela se expressa. Não é bonitinho, limpo, perfeitamente empacotado como estamos acostumados, mas uma estética suja, incômoda para os nossos olhos, questionadora.

Andar como um cachorro, comer ração, urinar em um poste. Tudo isso faz parte desta roteiro estético que pode gerar mil e uma interpretações: desde que aquilo tudo não passa de uma crítica à condição humana, até aqueles que veem a manifestação com banalidade ou com raiva.

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Outra questão interessante é abordagem em relação ao corpo, sobretudo ao corpo feminino. Este ainda é cheio de amarras e preconceitos. Parte dos comentários, machistas por natureza, dizem respeito a isso (comentários do tipo: “ah, isso é falta de um pau”) e não existiriam caso esta mesma performance fosse feita por um homem.

É até um bom exercício imaginar se no lugar do corpo feminino, o corpo em questão fosse do homem. Quais seriam os comentários? Quais seriam as reações?

Dito isso e relevando todas as posições artísticas, opino: se há algum objetivo além da estética pura, se o desejo ali é de levar alguém para uma reflexão crítica, ou comunicar, ela é falha.

Falha porque comunica, ou se presta a uma reflexão crítica, apenas àqueles que já possuem este tipo de pensamento. Como comunicação é ineficaz porque a mensagem (se é que há uma mensagem) não sai da bolha.

Àqueles que deveriam ser tocados para uma reflexão a respeito da sociedade, do machismo e das nossas mazelas como sociedade acabam tendo uma reação exatamente oposta. Ou se sentem ofendidos.

Fincam o pé ainda com mais forças naquelas convicções que a manifestação deveria atacar. Divide muito mais do que agrega. É só olhar as dezenas de comentários no grupo da UFRN e as brigas entre posições claramente distintas.

E quando há briga, quando não há espaço para que nenhum dos lados ceda, não vai haver mudança, só mais animosidade entre os grupos.

Mas pondero que se a provocação teve como objetivo expor os preconceitos da nossa sociedade, ela funciona bem. Basta olhar de novo os comentários e até as notícias sobre o ocorrido: há desde tentativas de colonização ao corpo feminino, manifestações puras de violência e de preconceito.

É que nós, como sociedade, não estamos preparados para encarar uma crítica sobre nós mesmos.

É lógico que isso é uma especulação minha e minha visão sobre os fatos. A questão é que nós do apê localizamos a autora da performance e queremos ouvir a palavra dela sobre o ocorrido e a repercussão para ter algo mais aprofundado sobre o tema.

E você, o que acha sobre isso tudo?