Se você gosta de tatuagem e mora em Natal, certamente já ouviu falar de Roberto Nascimento. Ele é um dos principais tatuadores da cidade, conhecido pela beleza dos desenhos e também pelo custo acessível do seu trabalho.

Ele começou na área comprando material para tatuar nele mesmo. Sete anos depois contabiliza mais de 8 mil desenhos feitos e uma legião de fãs na cidade.

Roberto se destaca pela visão diferenciada e inspiradora em relação ao processo de fazer tatuagem. Ele encara a profissão como uma forma de arte, em que o desenho nasce a partir da ideia o tatuado e da conversa que ele tem com o tatuador.

É um processo mais lento do que o habitual – marcadamente mercadológico – mas que gera resultados incríveis.

Conversei com ele sobre tatuagem e as respostas foram tão sensacionais que decidi dividir elas por temas gerais. Coloquei as respostas de Roberto, na íntegra. Confira abaixo.

Trabalho no estúdio

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Bom, adotamos o tipo de comportamento que se aplica a produção de arte , como ateliê, e não estúdio de tatuagem. Nos últimos anos, o trabalho como tatuador passou por um processo de supervalorização como cultura pop, e isso deu um tom de estereotipo ao contexto. Queria que ficasse com cara de lugar pra sentar e conversar, como se fosse a sala da minha casa. Detesto exagero de imagens sólidas, então qualquer um que entre nele, não vai ter o bombardeio de desenhos pendurados nas paredes, mas cores e coisas que lembrem a casa de qualquer pessoa. Curto a familiaridade, acho que ajuda a ficar tanto tempo dentro dele. Nosso dia tem 16 horas de trabalho

Como começou

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A ideia era comprar material pra fazer uma tatuagem em mim porque achei que os preços de mercado estavam absurdos. Detesto o fato de certos trabalhos ficarem para apenas a elite e não ao alcance de alguém que tem uma boa ideia. Tatuo porque gosto. Acho que às vezes podemos encarar o ganho como consequência e priorizar o processo. Existe uma diferença entre fazer uma tatuagem e comprar um adesivo, a tatuagem precisa ter mais do que o dono dela pede. Dentro do conceito que às vezes é estabelecido pelo futuro dono. Desde que comecei não interajo muito com o pessoal (outros tatuadores). Fico muito no meu mundo, invisto meu tempo no que faço. Deixo as relações públicas para quem me procura, e procuro receber bem. Mas não gosto de panelinhas. Nas conversas, sempre quando apareço pra visitar, percebo uma certa mania de furar os olhos dos outros. E não gosto de me meter neste tipo de coisa.

Ofício de tatuador

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Muita gente pensa no trabalho de tatuador como um jeito de viver à margem sem se preocupar com satisfação social. Meio que aquela historia de “se não quer estudar, vire tatuador”. Sei lá, tem gente que acha que basta copiar uma imagem e que tá tudo certo. O desenho pode ficar lindo, mas não adquire alma. A alma da imagem retratada tem de ser prioridade, a natureza por trás do que se revela do tatuado. Toda imagem é um ícone que revela algo.  Tatuar-se acaba sendo também uma maneira de permitir que outras pessoas interpretem coisas sobre você, sem que precise falar.  Só que hoje em dia muita gente pergunta o que os desenhos significam, isso acaba deixando as coisas mais interessantes.  Minha maneira de exercer minha religião, minha preocupação com o outro é tatuando.

Processo 

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Preciso ver quem será a tela, que historia ela tem pra contar, os detalhes, o que lhe causa sofrimento, alegria, onde ancora seu estado de espirito. Quais os pontos onde algo se perdeu ou foi encontrado, onde mora seu lado mais humano. Conversar sempre aponta direções. Sempre falo que definir tatuagens funciona como um namoro de ideias. As de quem tatua e as do tatuador. Tem de ter afinidade. Tiro para os outros o que priorizo pra mim. Não entrego a minha pele pra quem eu não tenha simpatia. Quando alguém se tatua, entrega para alguém pele, dor, sangue, um contrato de confiança inviolável para a vida toda. Acho que isso importa muito. O tema a ser tatuado acaba se tornando o objeto direto do meu amor. No meu trabalho funciono como um tipo de sintetizador, meu papel é ser o caminho do meio onde as coisas tomam forma.

A tatuagem 

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A tatuagem talvez seja o rito mais antigo feito entre irmãos. Falo irmãos por que quando você decide tatuar, o momento remete a isso. Existe uma certa fraternidade na hora, trocamos experiências e isso acaba sendo divertido a medida que outros personagens se incorporam. Acho muito legal quando entre as tattoos, vejo pessoas na sala de espera pessoas interagindo, tipo trocando figurinhas. Sabe o tipo de pessoa que se vê todo dia na rua e que não se cumprimenta por qualquer motivo? Tipo, ateus e evangélicos, prostitutas e puritanos, intelectuais e imaturos, letrados e pouco estudados, formados e trabalhadores braçais. Acho muito legal ver essa galera conversando, trocando experiências, se divertindo e interagindo. Minha esposa às vezes fala que sou dado demais, acho que acabo contaminando todo mundo no estúdio com isso. Tatuar é se dar a oportunidade de gerar na pele um conceito que vai ser visto por pessoas que podem nunca falar com você, mas podem lembrar do que viram. Existe muita coisa em jogo.

Ps. Se empolgou? Então precisa ter paciência para tatuar com Roberto. Ele está com agenda lotada. Segundo me disse, só tem vaga em abril e só é possível marcar no estúdio dele apenas a partir do dia 2 de fevereiro do ano que vem.

*As fotos foram tiradas do perfil público dele no Facebook.