Câmara Cascudo, não tive o prazer de lhe conhecer em vida (ou seria o contrário?), mas lhe escrevo para contar que infelizmente, mesmo depois de quase um século que você proclamou a frase: “Natal não consagra, nem desconsagra ninguém”, essa afirmação não poderia ser mais verdadeira, em pleno ano 2016.

Divago sobre como este hábito do natalense cultivar o que é de fora em detrimento do local, começou. Divido a opinião com alguns, que este costume pode ter nascido lá na época da Segunda Guerra Mundial, quando nossa capital potiguar passou por um turbilhão de novidades, com a presença de milhares de americanos em nossa terra. Era a primeira cidade da América do Sul a consumir Coca Cola, chiclete que ninguém tinha provado, e até óculos Rayban, modelo wayfarer. Tudo era tão novo, belo, diferentão, e estrangeiro. Parecia que nunca teríamos algo para se comparar com tais adventos advindos do “primeiro mundo”.

Enfim, depois de 71 anos, continuamos com este problema de inferiorização em relação às outras “terras”. Podemos considerar este fato como um hábito arraigado, compartilhado pelos habitantes da nossa pequena província. É algo difícil de mudar, mas não impossível.

O que falta no natalense é o ímpeto bairrista de bater no peito e gritar as belezas da nossa terra. É o amor regional de reconhecer que sou comedora de camarão, frequentadora da Redinha, da Ribeira e de Ponta Negra (de noite é Black Point). Falo boy, galado, ixi maria, mainha e ninguém entende quando estou fora do estado e proclamo as palavras “tá com a bixiga taboca esse minino”.

Sou da terra de Câmara Cascudo, Nísia Floresta, Auta de Souza, do Grupo Clowns de Shakespeare, do Grupo Estação de Teatro, do Coletivo Caboré Audiovisual, da Titina Medeiros, da Quitéria Kelly, do João Júnior, do Juão Nin, do Luiz Gadelha, da Simona Talma, do Plutão Já Foi Planeta, da Luísa & e Os Alquimistas, do Dusouto, da AlaMoana, do Igapó das Almas, do Fukai, do Far From Alaska, do Henrique Fontes, da Casa da Ribeira, do Anderson Foca, da Alice Carvalho, dos Jovens Escribas, do Carlos Fialho, do Patrício Júnior, do César Ferrario, João Marcelino, Diana Fontes, Flávio Freitas, Guaraci Gabriel e de tantos outros potiguares incríveis que não deveriam precisar sair da terra para serem reconhecidos.

Vamos começar com atitudes pequenas, afinal, é assim que mudamos o nosso mundo. Vamos frequentar os espaços culturais, conhecer as belezas naturais, o interior, lutar pela melhoria da cidade, aplaudir o show de uma banda potiguar, vamos participar e ter orgulho de ser potiguar, consagrando esta terra e as pessoas que fazem a diferença!