É difícil ser feminista.

É consenso entre nós, mulheres: essa estrada não é fácil. Pode perguntar a qualquer uma. Já fizemos música, livro e até poesia sobre isso, sobre o quanto é complicado desconstruir parâmetros sociais pré-estabelecidos que nos oprimem diariamente, das formas mais sutis às mais escrachadas. Lógico que, uma vez que percebemos o quanto esse sistema é (e deve) ser remodelado, torna-se praticamente impossível voltar para o estado anterior. É muito improvável que nos resignemos com certas situações uma vez que notamos quão absurdas elas são.

Uma vez estourada a bolha, piscamos, atordoadas. A sensação é exatamente como levar um baque forte na cabeça, só que obviamente, assim como na História, as coisas não acontecem da noite para o dia: o empoderamento é um processo gradual. Em dado momento, passamos a acordar todos os dias com duas tarefas que invariavelmente vamos executar, não por obrigação, veja bem, mas porque fazer parte de um movimento desses te dá VONTADE de trabalhar nisso.

Há duas maneiras básicas de desconstruir o machismo: em nós mesmas e nas outras (e outros) e são raros os dias nos quais eu não tenho ao menos uma atitude que se encaixe em uma dessas duas situações. A olhada de relance no espelho pode significar um turbilhão de pensamentos me dizendo inúmeras coisas que geralmente só consigo ouvir porque sou mulher. Novamente perguntem às suas amigas: “você já mirou o seu reflexo e quis mudar algo nele”? É lógico que sim. E já nos sentimos culpadas por querer essas mudanças também, pois sabemos que feminismo é sobre sentir-se bem, sobre aceitar-se e de certa forma travamos uma luta conosco – umas mais, outras menos, dependendo de quantas opressões se acumulam – nessa busca incessante que é SE desconstruir e (RE)construir uma “eu” que seja mais gentil consigo mesma. Uma “eu” que possa se amar sem ter tantas restrições.

Falo dessa espécie de militância solitária com muito amor, aliás. E falo dela aqui, hoje, para dar um sopro de motivação em nós. Talvez andemos precisando criar esse costume de relembrar a todo momento a importância desse conjunto de atitudes em nossas vidas e da importância que ele assumirá para as próximas gerações. Explico.

Você pode discutir com seu amigo sobre licença paternidade e chegar à conclusão de que ele não vai mudar de ideia. No dia seguinte, um atrito com seu pai: ele é contra a descriminalização do aborto. Horas mais tarde você vai trabalhar, olhando para os lados. Se estiver a pé, receio de assédio e assalto; se estiver de carro… Receio de assalto, mas assédio também (eu já fui assediada dentro do meu carro, acreditem). Receio de tudo, receio sempre que tentamos ocupar nossas cidades. Você chega ao trabalho e ouve uma piada machista. Você corre para o banheiro.

É quase insuportável.

E tem muitas mulheres em situações ainda piores que a sua. Tem aquelas que nem oportunidade de trabalhar tem. Que não desfrutam de um carro ou de dinheiro para ônibus. Mulheres mais sozinhas que você e assim… Sofremos.

Todas as pessoas do seu cotidiano podem tornar sua missão mais difícil se elas discordam de você ou acham feminismo a maior balela do mundo. É difícil passar para os outros uma experiência que só você tem o poder de compreender em toda a sua complexidade, pois só quem vivencia aquilo é você. Você, com todas as suas características e oportunidades (ou falta delas).

Você.

Mais dia, menos dia, você segue e seus pensamentos não mudam: o aborto é um direito da mulher, é questão de saúde pública; é errado nos assediar na rua, é errado assediar QUALQUER mulher em QUALQUER circunstância. Piadas machistas não são engraçadas, nem muito menos legais.

E nenhuma dessas pessoas que discordam de você pode entrar na sua cabeça e mudar isso.

E todos os dias você lê mais e todos os dias você evolui mais. E todos os dias você transmite mais conhecimento, todos os dias você faz uma nova amiga. Você senta com sua prima ou sobrinha mais nova e ensina “esse corpo é seu, só seu, ninguém a não ser você mesma tem direito sobre ele”.

E nenhuma dessas pessoas pode parar isso.

Você abre uma de suas redes sociais e lê a notícia de que um conhecido agrediu a namorada. Você manda uma mensagem de apoio para ela, você a abraça (se tiver a chance) e diz “vai ficar tudo bem, a culpa não é sua”. Você mentaliza o bem-estar dela, divulga a notícia como pode… você grita.

E nenhuma dessas pessoas pode te calar.

É um processo eterno, constante, impossível de ser interrompido. É o mesmo processo que nos faz ver o vídeo de uma menininha de seis anos questionando sexismo na indústria de brinquedos; é o mesmo processo que faz com que um garotinho vá à escola com sua sandália cor-de-rosa (nada mais natural) e o mesmo processo que faz com que a gente exija representatividade adequada na mídia e fale mais sobre apropriação cultural. Tudo se conecta.

E o seu pai, seu chefe, seu amigo ou o conhecido que abusou da parceira e nega veementemente nada podem fazer contra a militância que está aqui dentro.

Olhe ao seu redor. Parece desanimador à primeira vista? Tente pensar assim: cada passo teu é teu. Ninguém tira, ninguém usurpa, ninguém pode dizer que é mentira porque continua sendo verdade e queima todas as vezes que você se defende e defende outra mulher. Usemos isso para criar ânimo entre nós mesmas. É o que eu uso todos os dias da minha vida. Lembro todas as vezes que abraço uma grande amiga quando preciso de ajuda. É também a primeira coisa que me vem à cabeça quando vejo ou leio algo que me faz acreditar – mesmo que seja por um segundo – que estamos regredindo.

Porque para desespero de todos que tentam nos parar nós não estamos.

E seguimos.