A história começa porque Henrique achou uma frasqueira antiga junto com os entulhos de lixo. E a frasqueira tinha elementos de uma história de uma vida longa e que começava a se fazer esquecer. Os objetos da mala montaram uma história: de trás pra frente, in media res, olhando para o que já foi. Uma história de passado. Que começava a se desfazer, porque a morte já havia chegado e a levado embora.

É assim que se faz Jacy, a peça de teatro que conta a história dela: de Jacy. Ou a história da frasqueira de Jacy. Ou a história editada e recontada e investigada dessa vida inteira: a vida de Jacy.

Essa narrativa que se faz de trás pra frente, de frente pra trás, voltando ao meio, indo ao fim de novo, intercalando realidade e ficção, se desfazendo do texto pronto: é só o retrato da vida, o resumo desse filme longo que se perde logo depois da morte, muitas vezes.

A história me lembrou minha avó, que morreu mais ou menos como Jacy: por complicações depois de uma queda. Jacy se levantou de madrugada para ir ao banheiro e escorregou. Minha vó levantou uma madrugada para ir ao banheiro e escorregou. Não resistiu depois de um mês. Jacy também não.

Desse momento pra trás, Jacy se conta criança e jovem, aluna do Neves, estudante de psicologia, mulher apaixonada, funcionária pública, mulher desiludida, mulher que vai embora e volta a Natal. Que envelhece e morre. E deixa os objetos por aí para contarem sua história – ou para se perderem no lixo e deixarem-na esquecida por completo.

Quando vi, eu estava pensando que nunca havia pensado (!) na minha avó jovem. Assim como mal consigo imaginar minha mãe jovem. Por eu já as ter conhecido assim, adulta, idosa, não paro para pensar em como havia sido seu antes. Seria como pensar em outras pessoas. Em outra vó e em outra mãe. Jacy, quando se conta velha, é uma. Quando se conta nova, parece uma outra completamente diferente. São duas pessoas perdidas no tempo, que parecem não se encontrar: muita coisa se perde pelo meio do caminho (principalmente as pessoas). Muito mais se soma, também. Com um intervalo de sessenta anos, parece ser uma nova pessoa que se desenha.

Eu tinha começado a pensar sobre isso há poucos dias e me vem essa peça. Agora quando adulta (cronologicamente), aumentou o número de pessoas que se assustam em como eu pareço com minha mãe, quando ela era assim, da minha idade. Agora quando adulta, eu me assusto quando não consigo parar de trabalhar, faço do banco de trás do meu carro um escritório, e dos meus cinco cadernos uma única agenda da semana. E me perco nisso tudo. Não posso mais reclamar da minha mãe, que vou ficando igualzinha a ela. E quando vejo minha mãe guardando objetos que não são importantes e que ela não vai usar nunca mais: mas são lembranças, são coisas da minha avó, são convites dos aniversários dos amigos, e ela guarda e a casa se enche de caixas. É a minha avó. Exatamente ela.

Parece que o tempo vai passando e a gente se transformando em passado. Nos tornamos novas pessoas idênticas às pessoas antigas que nos criaram e nos deixaram de herança esse tudo que parece nada: os hábitos, as manias que atrapalham, as dores nos pés, e a insistência em tentar se desenhar pro futuro, quando a gente repete nosso passado. Nossos antepassados.
Enquanto Jacy me pareceu ser duas ou três pessoas diferentes ao longo de uma vida, eu, minha mãe e minha avó às vezes parecemos uma mesma pessoa em três vidas diferentes, em três tempos que não se encontram. Que só se encostam, para logo se separar. Eu vou ficando parecida com minha mãe quando ela tinha essa idade, enquanto ela começa a se parecer com minha avó quando vovó tinha essa idade. E vamos deixando pra trás quem éramos e nos transformando em nosso novo futuro, que consegue parecer uma reprise do passado.

E acho que isso acontece que é para a gente não se perder. Para os tempos se resvalarem vez em quando, o fio ficar preso, a imagem da vida se perdurar. Porque depois de partirmos, só ficam as malas antigas com objetos inúteis, com fotos de passados distantes e telefones de um passado recente. No lixo. E quase ninguém vai ter a sorte de ter seu passado encontrado por um ator de teatro. A gente se transforma em passado: e vai. E a vida inteira que fica, se esquece: na mala, no lixo. Pra sempre.

Nota da edição: Beatriz Madruga é escritora, lançou um livro lindo que você pode baixar aqui.