Ontem a polêmica tomou de assalto a cena musical de Natal.

A principal delas, talvez, tenha sido a que envolve o músico mossoroense Artur Soares, acusado de racismo e machismo pela música “Má Nega” cujo clipe foi indicado ao Prêmio Hangar de Música.

O Coletivo Leila Diniz publicou uma nota de repúdio ao artista e ativistas ameaçaram um boicote ao Artur Soares e ao Prêmio Hangar, pela indicação. Eles exigem uma retratação do músico e a retirada imediata do clipe do ar.

Fiz uma pequena entrevista com Artur por email para ouvir o lado do artista sobre a polêmica.

Na conversa, ele descarta qualquer intenção machista ou racista, afirma que a letra é inspirada em um samba Ataulfo Alves e diz que queria homenagear à mulher negra. Ao final, ele pede desculpas a quem se sentiu ofendido.

1 – O que você achou dessa reação negativa de parte do público?

Veja bem, Fábio. Acredito que a reação do público foi positiva. Existem pessoas que estão realmente dispostas a entender o assunto e isso é fundamental. Desde sempre fiz músicas das mais variadas formas, com os mais variados contextos, procurando sempre me expressar de forma natural. Tenho em mim a máxima “não guarde para si o que não lhe pertence” porque acredito que cada um tem seu próprio modo de ver as coisas. São sete bilhões de formas de pensar, em sete bilhões de pessoas no mundo. Se isso fosse me abalar para além da superfície do ser, eu estaria em boas mãos. Meus amigos estão comigo, minha família, a mulher que eu amo me apoia. Não tenho do que me queixar.

2 – Qual foi a sua real intenção com a letra?

Quando entro em processo de criação, procuro esquecer as amarras, ficar nu de meu dia-a-dia. Houveram várias intenções durante a construção da letra, todas ligadas à mulher negra e à cultura umbanda, tendo em sua batida percussiva elementos da música cantada em reverência à Oxum, o orixá das águas doces. A intenção da música era obviamente homenagear uma mulher negra. Acredito que as pessoas devem procurar enxergar as coisas com mais sensibilidade.

3 – E essa referência a senzala, pode nos explicar como foi a ideia?

Nesse trecho que diz:

“Nêga, você vai gostar
Nêga, eu vou te prender
Na senzala iorubá
E o que eu ensinar
Você vai ter que aprender
Porque eu vou te maltratar
Pretinha…”

Fui influenciado por nosso mestre do samba, Ataulfo Alves, quando diz na letra de
‘Mulata Assanhada’ os seguintes versos:

“Ai, meu Deus, que bom seria
Se voltasse a escravidão
Eu pegava a escurinha
Prendia no meu coração
E depois a pretoria
É quem resolvia a questão…”

4 – Parte dos movimentos sociais prega boicote a você e exige que você tire a música do ar, como você reage a isso?

Não reajo, Fábio, pelo simples motivo de que acho isso tudo um grande mal entendido. Eu não tô nessa. Peço desculpas a quem se  sentiu ofendido, não houve nenhuma intenção pejorativa, machista, racista, de minha parte. Grande abraço!

Para ilustrar o post, Artur anexou a música “Cartas Brasilis”, de autoria dele e lançada há duas semanas,