Falemos de quem fica. Ora, vejam só: a coisa que mais tem aqui nessa cidade é gente querendo ir embora. Não que eu ache que isso seja algo particular nosso (ou de alguma região específica), mas fato é que: pouco se fala sobre quem fica.

Quem fica?

Já me disseram que era coisa de adolescente essa ânsia de querer sair daqui. Não acreditei. Mas sabe aquela frase que todo mundo já escutou e/ou proferiu alguma vez na vida? Algo como “essa cidade é muito pequena pra mim”. Quem nunca pensou assim? Quem ainda pensa?

E quem não pensa?

Eu já quis ir embora, hoje eu quero ficar. A ansiedade de querer se mudar não te faz normal ou capaz de julgar. E vice-versa. Alguma vez na vida você já perguntou a alguém que queria ficar o motivo? Pra quê continuar? Algo te prende ou você tem medo? Isso me entedia, vamos sair? Sempre os mesmos lugares e eu já não tenho paciência, pois penso que já respirei demais o ar que um dia foi o “mais puro das Américas”.

Todo dia uma informação nova, todo dia um lugar novo que quero conhecer. Constantemente tiramos nossa inspiração de gente que pega uma mochila, joga nas costas e vai desbravar o mundo. Com seu pouco dinheiro, sua muita determinação e narizes inquietos, sedentos de novos ares sempre.

Ninguém fala dos narizes quietos.

Mas isso é porque achamos que são quietos. Somos levados a acreditar que se ficou foi por falta de opção, por “amor” ou por medo. Só que eu acho que todo mundo tem medo. Quem vai e quem fica. São valentias equivalentes e distintas.

Então vou falar um pouco da minha.

Preciso do novo feito com as minhas próprias mãos. Preciso descobrir todos os dias um canto novo da cidade antiga. Preciso revitalizar o velho, reconhecer a história perdida. Você sabe tudo que há pra saber sobre esse lugar? Te interessa? Ou você simplesmente nunca parou pra pensar nisso? Permita-me parar por você, permita-me dizer que essa cidade pequena ainda pode te surpreender. Se você quiser, claro. E deixar.

Eu quero reconfigurar.

Eu quero ficar, mas não porque insisto no mesmo. Eu quero ficar porque quero mudar. Mudar aqui, mudar isso aqui. No fim somos os mesmos só que com formas diferentes de lidar. Não pensem que nos resignamos ou que faltou dinheiro no banco. Não pensem que fomos fracos ou que deixamos que os receios nos dominassem. Pensem que somos os mesmos, iguais. Procurando respostas nas ruas da nossa infância, nos prédios municipais, no estádio derrubado, no cais abandonado, no edifício restaurado.

Pra nós, a resposta está aqui; para eles, lá.

A gente fica. Mas fica também na espera de um retorno ou da nossa própria partida. Não importa qual dos dois aconteça primeiro, eu só espero que de alguma forma, por favor, haja reencontro. Que haja diálogo, que haja troca. Que enxerguemos no outro nossa própria história e percebamos que, no fim, não somos tão diferentes assim.